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Quarta-feira, Outubro 25, 2006

então, até já.

os homens e o choro das mulheres

Para a maior parte dos homens*, uma mulher a chorar é algo de desconfortável, um espalhafato desnecessário e constrangedor. Olham-nos receosos e desconfiados, como se assistissem a um freak show, tipo, o disparo dos anões-bala ou a dança da mulher barbuda. A choradeira feminina é algo que os incomoda e repugna mas que, ao mesmo tempo, os fascina, pela estranheza (indiferentes, nunca ficam). Por vezes, o embaraço é tal, que chegam a sorrir desajeitadamente, como aquele público nos espectáculos dos fura dels baus, não sei se estão a ver.
O facto de olharem para nós como uma aberração prende-se com uma total falta de empatia, que é de génese cultural: um homem não chora, portanto, não sabe o que isso é. Pelo menos, não sabe o que é o esgoelanço desesperado, o arrancar de cabelos, o arrojanço pelo chão de uma mulher em regime de choro convulsivo. Falo, obviamente, de mulheres normais, não daquelas atrofiadas que têm a mania que são ladies tanto na cama como na mesa e que gostam de alardear um recato hipócrita ao estilo matrona amish.
Mas, portanto, dizia eu, os homens não se arrastam habitualmente pelo chão deixando atrás de si um lastro de baba e ranho como os caracóis, logo, não entendem porque as mulheres o fazem e porque não se controlam. O que nos conduz ao ponto dois: Como não entendem, desconfiam. Acham sempre que a gaja, para se estar a dar a tanto teatro, quer qualquer coisa ilícita em troca e está determinada a obtê-la, atento o esforço de pulmão. O aumento da convulsividade do choro é, portanto, directamente proporcional ao pé atrás e inversamente proporcional ao montante de pena que ela acha que ele devia sentir. Vendo-lhe os olhos a ficarem do tamanho de ovos, a maquilhagem esborratada e a expressão cada vez mais esgazeada, ele vai ficando assustado e a pensar “Ná... Isto é fita, só pode”, “Fosga-se!, mas o que é que ela pretende???”, o que nos conduz ao ponto três: o ele querer pôr-se dali para fora o mais depressa possível e que a cena acabe rapidamente, pois sente-se claramente em território desconhecido, que não domina.
Ora, todas nós sabemos que isto das crises de histeria, dos ataques de nervos e das manifestações de desgosto em geral, têm o seu timming – neste campo, nem sempre as rapidinhas funcionam. A tristeza e o desespero pedem tempo para se poderem espraiar e desenvolver na sua plenitude: têm um calendário a cumprir. Com o início do confronto pedem-se explicações que, obviamente, nunca satisfazem; por esta altura, ainda somos capazes de verbalizar as nossas emoções de forma coerente, embora caminhemos rapidamente para o descontrolo. De seguida, vem a choradeira e as recriminações e o gajo que é culpado de todos os males do mundo, mais do mal de não saber reconhecer que é culpado.
A dada altura, o cansaço pelo esforço físico dá lugar a uma certa resignação, que logo se esfuma quando os vemos aliviados com o nosso silêncio. Porque nós não os queremos aliviados, era o que faltava!, queremos que eles penem, e vai de fingir que é dor a dor que deveras sentimos, como dizia o poeta. E eles penam: não porque sintam qualquer simpatia para connosco, não porque nos entendam a dor nem porque se sintam arrependidos do que quer que seja – penam porque querem bazar dali para fora, sentem-se presos numa teia moral entretecida com fiozinhos de culpa e, ao mesmo tempo, sentem-se aldrabados, mesmo que nos fitem com olhinhos de beagle.
Ou seja (e a propósito de beagles e de prisões): estamos presas por ter cão e presas por não ter. Se nos aguentamos à bronca e engolimos as lágrimas, mantendo a altivez de uma dama vitoriana, com os olhos a todo o tempo dentro das órbitas e um discurso racional e coerente, quase desinteressado, é porque somos frias, não damos valor à “relação” e não nos importamos. Se largamos o sofrimento que temos cá dentro e desatamos a abrir ao estilo tragédia grega (porque já não aguentamos, porque desta vez foi demais…), somos umas histéricas de pouco nível e, ainda por cima, com uma agenda.
Por isso, olhem, minhas amigas, não se coíbam e esgoelem-se à mesma que eles, de qualquer forma, não entendem nada. Não entendem, designadamente, que a nossa choradeira desenfreada é a hemodiálise das relações amorosas falhadas, já que é através das lágrimas, do ranho, da baba e das perdas de xixi (sim, aquela incontinência súbita quando retesamos o abdómen entre soluços), que os expurgamos do sistema.

* É claro que o meu universo representativo não é o gajo sensível que gosta de carpir em uníssono com a sua gaja e que, com algum esforço, até atinge um tom de falsete; eu é mais na onda dos camionistas licenciados, que são a grande maioria da espécie com que me cruzo.

Sexta-feira, Outubro 13, 2006


wishfull thinking e boa publicidade.
ainda a propósito de cinema...
Durante grande parte do filme A Senhora da Água (fraquinho, fraquinho), aparece na parte de cima do ecrã, e sobre as cabeças dos protagonistas, aquele microfonezinho que a produção usa para lhes captar as falas. A sério. Por vezes vê-se o microfone quase inteiro! Quem reparou foi a minha filha e eu (tipo Duh!), Ah, vais ver que aquilo é mais um dos truques à la Shyamalan, no fim vai haver uma daquelas reviravoltas e nós vamos perceber para que servem os microfones. Deve ser eles que estão a ser espiados pelo povo das águas ou uma coisa assim... E a miúda a olhar-me como se eu é que fosse a filha e merecesse pontos extra pela estupidez acumulada, Não é nada, mãe, por favor! É um microfone mesmo, olha! E era. Estarão todas as cópias assim? Presumo que sim, porque são iguais para todos, não é? Eu vi no Vasco da Gama. Mais ninguém reparou? A verdade é que, às tantas, caguei na senhora das águas e na estapafurdice da história (juro que não sou eu a embirrar, aquilo é mesmo idiota) e só olhava era para aquela coisa lá em cima, a balouçar sobre as cabeças deles... uma vergonha. Bom, mas ao menos deu para confirmar que o Shyamalan pode ser distraído, mas é giro.

adenda: a ignorância pode ser uma coisa muito triste, mas de penalidade atenuada, quando confessada. Transcrevo, por isso, um mail esclarecedor (shame on me)que recebi de uma leitora atenta, a Anabela:
"sobre o seu último post (A Senhora da Água): os microfones aparecem não por distracção do realizador mas por PURA INCOMPETÊNCIA do exibidor; a 'perche' (assim se chama a barra onde o microfone está colocado) tem que estar desejavelmente alinhada com uma das margens do enquadramento na altura da rodagem, enquadramento que, no resultado final, se chama 'formato do filme'; 1:33 , 1:66 etc etc. Essa indicação é fornecida nos dados técnicos do filme que QUALQUER exibidor, se for competente e desejar RESPEITAR A INTEGRIDADE E OS DIREITOS ARTÍSTICOS DE UM FILME, deverá seguir, colocando a chamada 'janela' adequada ao formato do filme; e, para além disso, deverá testar a projecção por forma a ajeitar o 'frame' (fotograma), para que este seja projectado na íntegra - nem a mais, nem a menos.Ora, o que assistimos cada vez mais é a um desleixo, por parte dos exibidores, ESCANDALOSO, que é motivo MAIS DO QUE SUFICIENTE para EXIGIR a DEVOLUÇÃO DO DINHEIRO DO BILHETE, tal como seria, por exemplo, ir a um espectáculo de teatro e estar constantemente a ouvir barulho de técnicos nos bastidores (sim, ver o microfone na imagem é MESMO um «ruído» na comunicação também, como aliás o seu post bem demonstra). não gosto particularmente do Shyamalan, mas o seu a seu dono: a culpa não foi dele. :-)".

Esta é uma das razões porque gosto da blogoesfera: de quando em vez, aprende-se.

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

volver

O Almodovar vicioso, corrosivo, mas também ingénuo, de Atame! e de Negros Habitos, por exemplo, deu lugar ao Almodovar mainstream, apontado que nem uma seta a Hollywood e aos Óscares. É agora um tipo que faz filmes, literalmente, para inglês ver. Como resultado, parece que passou a sentir-se na obrigação de os explicar tintim por tintim, para que os burros dos americanos os percebam e com isso tornou-se, basicamente, um chato. Já para não falar na nítida sensação do vamosdarlhesoqueelesquerem. Não que eu tenha alguma coisa contra os realizadores mainstream; aliás, são os meus favoritos, já que eu sou mocinha pouco alternativa; mas oponho-me terminantemente ao tédio. O tédio é uma maçada; às vezes, chega a ser uma chatice. Por isso, quando começo a mudar de posição na cadeira, a olhar para o relógio e a pensar no jantar do dia seguinte, está feito o veredicto: boooring. É claro que a história está engraçada e o argumento, original, como sempre. Mas, apesar da magnífica Penélope Cruz e das suas não menos magníficas maminhas (como diria Paulo Portas na sua crónica no Sol) e de alguns momentos geniais, como o velório da Tia Paula ou a Agustina no talk show, o filme é, no seu conjunto, um bocado desequilibrado, ou seja, não é lá muito bom. É só bonzito, vá. Há situações claramente metidas a martelo, como a parte do restaurante (para que não nos restem dúvidas de que Raimunda é a verdadeira mãe coragem) ou o inefável momento musical; como se Almodovar estivesse preocupado em deixar no filme a marca “Almodovar”, como se fosse um discípulo de si próprio e da “escola” que criou. Como consequência, o trabalho de montagem está longe de ter sido perfeito e a história não corre fluída, como era hábito nos filmes anteriores a Todo.... Por outro lado, as personagens secundárias, habitualmente coloridas, excêntricas, marginais, vêem-se aqui reduzidas a uma maçadora Agustina, uma inconsistente Sole e uma tonteca Irene. Vale a pena o dinheiro do bilhete? Claro que sim. Mas deixem-me que vos diga: redunda num pequeno tédio, quando aos bons artistas (sim, porque o rapaz é um bom artista, lá isso) lhes dá para se começarem a imitar a si mesmos, simplificando a mensagem por forma a angariarem uma maior e mais abrangente empatia para com a sua obra. Mas isto sou eu e a minha opinião: esquisita. Ah! Fiquem até ao fim: o genérico final é um mimo de estética kitsch.

Quinta-feira, Outubro 05, 2006

andava há meses
à procura desta música, uma das minhas favoritas de sempre da MPB. É do Gonzaguinha, de que já falei aqui (embora não me lembre quando). Sei que há melhores, mais geniais e mais elaboradas, mas esta toca-me especialmente, quase desde miúda, quando ainda não sabia muito bem que era o amor, nem exactamente o que era ser mulher. Não sei se é pela voz da Simone, que canta com um sentido da inevitabilidade que me agrada, ou por me ter acompanhado numa fase pletórica, como foi a do fim da minha adolescência. Por ter sido uma das minhas primeiras descobertas brasileiras, tenho com Simone uma relação sentimental (embora ela, naturalmente, não o saiba). A verdade é que há uma versão da Alcione que já podia ter posto aqui, mas não é a mesma coisa: esta música não pede faca e alguidar nem choro e ranger de dentes; vejo-a sobre factos, não sobre hipóteses (como se falasse a verdade dos números), pelo que fica melhor se cantada com uma tristeza contida, afinal, quase alegre, pela constatação de liberdade/libertação que, no fundo, contém. Sim, eu entendo-a quase alegre; não é, por exemplo, como Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, cuja melodia desmente as palavras e transmite o desalento triste da rejeição. A versão que agora ouvem não a consegui em nenhuma das colectâneas cá à venda nem em downloads na net. Hoje, por acaso, encontrei um CD na Fnac, era o único e abarbatei-o logo. Curiosamente, quando entrei no carro e a pus a tocar, uma vez e outra e outra, tive uma nítida sensação de deja vú; de repente veio-me à cabeça que, há cerca de vinte anos atrás (tantos?), também não era capaz de a ouvir só uma vez: para canção tão perfeita, sempre a achei demasiado curta. Hoje, como então, a cada vez que a ouvia fui aumentando o volume, a emoção e a gritaria; por fim, lá pela quinta repetição, a condução tornou-se perigosamente instável porque o e daiiiiiiií saía-me já a plenos pulmões, os olhos fechados de gozo. Não foi só um regresso ao passado, foi mais do que isso porque acho que só agora entendo verdadeiramente a letra. Levei cerca de vinte anos para perceber que o amor vale pouco, se não for acompanhado da sensação de pertença.
feriado.

Quarta-feira, Outubro 04, 2006

este blogue
é como certas barbearias.
...e, a propósito de séries de tv,
uma referênciazinha a NIP TUCK, que passa actualmente na FOX - não tão boa como Carnivàle, mas, mesmo assim, muito boa. Eu confesso que o meu raciocínio, em relação à excelência, ou não, desta série, se mostra um bocadinho toldado. E Porquê? Porque, quando a vejo, fico sempre sob o efeito poderosíssimo da sexualidade avassaladora de Julian McMahon, o angustiado e egocêntrico Christian Troy. Desculpem lá isto dos adjectivos repetidos, mas a superlatividade erótica deste homem tira-me da contenção e do sério e desperta a groupie adolescente que há em mim, ou seja, uma incontrolável vontade de suspirar, arrancar cabelos (talvez, até, de gritar um bocadinho) e de me oferecer para sua escrava. É, sem sombra de dúvida, the sexiest man alive. E é mais do que isso.
atenção! parem as máquinas!
Às quintas, pelas 23 horas, na SIC Radical, a primeira temporada de Carnivàle.
Por isso, para quem ainda não experimentou o murro no estômago, seguido de falta de ar e taquicardia, que é assistir à melhor série televisiva dos últimos anos, é agora ou nunca. Se fosse eu, não aguentava a coisa às mijinhas, digo-vos já. Ia ali à FNAC comprar a primeira série e devorava os episódios todos de seguida (esperem!, foi o que fiz...). Depois, corria à Amazon e comprava a segunda série e, como esta minha ainda maior, enorme, superlativa e extra querida, se calhasse a ser da zona um ou lá o que é, papava-a à alarve no computador, mesmo que à rasca das cruzes e com os olhos em bico. Afinal, ele há coisas que não podem esperar. A luta entre o Bem e o Mal é uma delas.