Sexta-feira, Março 30, 2007
Sábado, Março 24, 2007
Sexta-feira, Março 23, 2007
Uma das cenas de amor mais bonita da história do cinema é a que se desenrola entre as personagens de Harrison Ford e de Kelly McGillis, no filme “Witness”, de Peter Weir. Ele é um polícia cínico e duro, da grande cidade, e ela, uma viúva amish, de modos ternos, presa a rituais de vida ancestrais. Amam-se, mas sabem que nunca poderão ficar juntos. Na cena de que falo, ele sedu-la, trauteando, enquanto anda à volta do carro (que estava a tentar arranjar). Acabam ambos a dançar, inocentemente e ao de leve, esquecendo, durante o tempo de uma música que sai de um pequeno rádio de pilhas, tudo o que os separa.

Terça-feira, Março 20, 2007
Isto vai de cor, que perdi o Tal & Qual a que me referirei, e a minha memória já não é o que era, do esticão que levou. Então é assim, do que me lembro, a Margarida Marante agora escreve para uma publicação cujo nome não me vem (lá está). Parece que num destes dias, resolveu dizer que o novo programa do Herman José não tinha piada nenhuma e que ele deveria tirar uma férias sabáticas para pensar melhor na vida antes de fazer programas destes. Herman José, em vez de encaixar a crítica, resolveu responder-lhe , fazendo capa no Tal & Qual, de uma forma soez, ordinária e absolutamente cruel. Eu confesso que sempre achei Herman um génio que mudou a face do humor em Portugal (sem ele, talvez não houvesse Gatos, por exo.), que merecia todos os iates que pudesse comprar e todo o dinheiro que pudesse ganhar. Também nunca o seu carácter me enganou: frio, ambicioso, calculista, mimado, egocêntrico, maldoso e com uma capacidade de encaixe mínima, por se achar uma espécie de divindade. Desta vez, Herman revelou-se no seu pior. Primeiro, começou por não reconhecer a margarida Marante qualquer legitimidade para lhe criticar o programa, insinuando que esta não tenha visto "Ricky Gervais" ou "Little Britain". Para começo de conversa, esclareçamos já umas coisas: eu devoro, a espaços, todas as séries do The Office", em especial o “Especial de Natal”, e tenho o “Ricky Gervais Live – Politics”, e o outro que é o “Animals”; já para não falar em todas as séries do Seinfeld, em a “A Louca Vida de Harrry” (autor do primeiro), nas "Absolutely Fabulous"; não perco um “American Dad” ou um “Family Guy”, nem The League of Gentlemen, entre outros. Isso fará de mim alguém legitimado a criticar um programa de humor? Ou não bastará alguém vê-lo e, pelo índice de sorrisos, de gargalhadas e de gozo que lhe provoca (ou não), ficar assim apto emitir uma opinião, pública ou privada? Em qualquer dos casos, eu emito a minha: o programa é fraco, os personagens são estranhos, não “pegam” no público, metade daquilo não se percebe, os textos são pobres. Foi uma aposta arriscada, mas falhou. E Herman, ao não conseguir engolir esta verdade, que lhe vai directamente ao desmesurado ego, resolve jogar baixo e atacar Margarida Marante em várias frentes. Primeiro começa pelo peso, insinuando que ela devia ir gastar tempo para um ginásio - o que é engraçado vindo de quem vem, um badocha pseudo-musculado. Depois, descendo ainda mais baixo faz um “faduncho” a gozar com aquela no seu programa, no qual não se coíbe de se referir directamente às alegadas dependências de Margarida Marante. Um achincalhanço nojento só porque a senhora se atreveu a dizer a verdade. Herman: o programa é fraco, fraco, fraco. E agora descubra-me os podres, crie um blogue e dedique-me um faduncho rasteiro, vá.
Segunda-feira, Março 19, 2007
A carta do Mantorras
Esta história tem muita piada, garanto-vos. Desde sempre (e ao contrário do que dizem os angolanos) as cartas angolanas não têm validade em Portugal, uma vez que Angola se recusou a assinar a Convenção de Viena sobre Tráfego Rodoviário, documento que rege as normais internacionais de circulação pelo mundo fora. Logicamente, e tratando-se de crime face à lei portuguesa, nas operações stop, angolano detido nestas circunstâncias é levado ao Tribunal de Pequena Instância Criminal Mais Próximo (TPIC), julgado e condenado em pena de multa. O que é engraçado é que esta pequena “revanche” de Eduardo dos Santos é a prova provada de que não basta ter cursos e usar-se fatos Armani para se ser civilizado. É claro que, não tendo ratificado qualquer convenção, nas estradas angolanas vive-se o regabofe total, e toda a gente conduz, por entre a corrupção às claras e a precariedade da legislação. Ou seja: não há lei que impeça os portugueses de lá conduzirem, o que eles fizeram até agora - parece que, entretanto, foi feita uma à pressa. E porquê? Porque o ícone máximo daquele país de treta, o aleijadinho sem sorte do Mantorras, teve o azar de ser “apanhado”, como centenas de outros jovens angolanos o são diariamente, pagando as suas multas seguramente com muito mais dificuldade do que o ídolo. Agora, ainda mais engraçado: imaginem um país à beira-mar plantado, com centenas de juízes e de delegados que seguem a única solução lógica e juridicamente possível: não ratificou a convenção, a carta não é válida, pronto. De seguida, ficcionem que existe uma pequena comarca com um TPIC que tem duas secções e dois juízos, cada um com o seu juiz e magistrado do Ministério Público. Acontece que um dos juízes (chamemos-lhe o juiz 1) acordou um dia, teve uma epifania e resolveu que, no seu juízo e a partir daquele dia, as cartas angolanas passariam a ser válidas em Portugal. A procuradora-adjunta que com ele trabalha, anuiu na tese peregrina, vá lá a saber-se porquê. A tese desenvolve a ideia mais ou menos estapafúrdia que, como Portugal assinou uma Convenção Rodoviária quando ainda era possuidor das colónias e destas fazia parte Angola, tal convenção também se aplica a Angola. É claro que passamos por cima do facto de Angola ser um país independente, com poder de auto-determinação e assim, apesar de tretoso e corrupto. Resultado prático: Cada juiz está de turno aos presos, semana sim, semana não; ora os polícias já sabem que, trazendo os angolanos ao juíz um e respectivo Ministério Público, aqueles são imediatamente soltos e o processo arquivado de imediato. Aproveitam, então, para fazer as grandes stops, as grandes rusgas, nas semanas do juiz dois, que chega a ter mais de quarenta sumários num só dia. E não há ninguém: o Conselho Superior da Magistratura, os Tribunais Superiores, a PGR - ninguém, que impunha a uniformização da questão. Angola é a República das Bananas, mas Portugal não o é menos, quando os arguidos são julgados de forma oposta graças às epifanias da independente e inamovível judicatura. Afinal, se o Mantorras tivesse sido apanhado na comarca e na semana do juiz um, não haveria notícia; o mesmo teria sido mandado na paz do Senhor e os angolanos não teriam feito a triste figura que andam a fazer, à caça de condutores portugueses. Palhaços. Todos.
Adenda: no Público de hoje vem um artigo de Rui Tavares intitulado “Sim, deixem guiar o Mantorras”. O dito artigo é um cadinho de desinformação, tentativas falhadas de humor e de paternalismo bacoco para com os angolanos. A deteminada altura, surge esta pérola (e eu cito): “ (…) os angolanos não começaram “de um dia para o outro” a confiscar cartas de condução portuguesas. Pelo contrário, fomos nós que, de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro, começámos a confiscar cartas angolanas”. Confesso que dei a voltas a isto a ver onde estaria a ironia ou qualquer outra figura de estilo menos perceptível. Não encontrei. Ele quer mesmo dizer aquilo. E está a enganar quem o lê. Rui Tavares: desde sempre que as cartas angolanas são inválidas em Portugal (pelo menos, desde o desmembramento das colónias e da transformação de Portugal num Estado de Direito). Quer sentenças nesse sentido de há quantos anos? Dois, três, quatro? Eu arranjo-lhe. Por favor, que artigo tendencioso, tão cheio de “bocas” e de factos incorrectos. Enfim, que artigo tão mauzinho.
Graças à generosidade de Joana Amaral Dias, temos a pérola jornalística em questão na blogoesfera, aqui.


