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Quarta-feira, Agosto 30, 2006

abaixo as férias! chega de ócio!

Ligo a SIC e ouço o Fernando Seara dizer "artigo quadragésimo oitavo". Para não variar, a ignorância pretensiosa dos autóctones dá-se ares no prime time. É que até eu, veraneante fútil papa-vips, sei que, quando falamos de reis, séculos, papas e... artigos legais, a praxis universalmente aceite nos diz que, ordinal, só até ao nono. A partir daí, e por uma questão de comodidade (não dá jeito, dizer Papa vigésimo quarto nem artigo tricentésimo décimo oitavo), convencionou-se dizer "dez", "onze" e por aí adiante, ou seja, usar-se o número cardinal. Como é que poderemos interessar-nos por aquilo que um gajo que não sabe uma regra básica destas, tenha eventualmente para nos dizer? Não poderemos. Portanto, uma fungadela de desprezo traduzida num zapping violento e já está. O pior é que aterro numa reportagem em que o arquitecto sénior responsável pele representação portuguesa na bienal de Veneza, uma "instalação" financiada pelo Estado em cerca de quatrocentos mil euros (?!), a define como uma "barraca", perante as risadinhas sabujas dos arquitectozinhos juniores que o rodeiam. Acrescenta que não sabe como aquilo vai ficar (risos), tal como não o deve saber, o arquitecto júnior que com ele compartilha a criação da coisa (mais risos). Naúsea minha. Eu, portuguesa/trabalhadora/contribuinte/gajadebom-gosto, estou a ser comida/roubada por uma dupla intergeracional espertalhaça (e ainda falam em generation gap...). Na movida cultural deste país, isto de O rei vai nu está a tornar-se uma realidade banal.

Terça-feira, Agosto 29, 2006

58ª entrega dos Emmy em directo, ontem no AXN, circa três da amanhã. Boring, tanta cinquentona recauchutada de olhar empalhado, sorriso agrafado às orelhas e maçãs do rosto a querer furar o que outrora, num dia muito muito distante, terá sido pele, ou seja, organismo vivo. Muitas Betty Grafstein, embora mais altas, com melhor penteado e maridos eventualmente não regurgitáveis. Do que vi, alcançaram o cume do constrangimento a Candice Bergen, com a boca de lado, num esgar plástico assustador (algo deve ter corrido mal na mesa de operações) e a Farrah Fawcett...ah, meu deus, nem sei que vos diga sobre esta última, uma amálgama de olhos, boca e nariz em tons de moka. Credo. Algumas até estão bem operadas, verdade se diga, e melhor do quando tinham vinte anos e um look "love boat". Edie Falco (a mulher do Tony Soprano) está óptima e a Helen Mirren, simplesmente fabulosa. Se é uma questão de cirurgião, porque não vão todas ao mesmo, ou seja, ao bom? Não percebo. Jon Stewart e Stephen Colbert (engradaçadissima, a frustração deste por ter perdido para Barry Manilow) como sempre, espertos, com piada, superiores - whats new?. Eva Longoria com um penteado de rolinhos à banda e um vestido cai-cai totalmente inadequados à sua idade e ao seu metro e cinquenta. Felicity Huffman estava óptima, num belíssimo vestido (talvez o melhor conjunto mulher/tom de pele/penteado/vestido). A rapariga dos ficheiros secretos melhorou decididamente desde que se deixou daquelas parvoíces dos ovnis e a Calista tem ar de velha, e é feia e irritante: continua, portanto, igual a quando era nova e fazia de anoréctica saltitante em Ally Mc Beal. Por outro lado, dizer que a Mariska do Law and Order foi melhor do que a Frances Conroy de Sete Palmos de Terra (a matriarca) só pode ser brincadeira. Tyra Banks e Heidi Klum, deusas. Quanto às séries de comédia, confesso, adoro Will and Grace e tenho um predilecção por Debra Messing (e por todo o elenco, em geral, excelente). Mas ganhou a Julia Louis-Dreyfus (do Seinfeld, lembram-se?), também consideravellmente recauchutada e com horas insanas de pilates, RPM e pump em cima. Horray! para o Kieffer Sutherland, por quem tenho, não é um fraquinho, é um fracão, embora não goste especialmente da série 24: enerva-me, o stress em contra-relógio e a frequente inverosimilhança dos enredos. The Office como melhor série de comédia? Só para quem nunca viu o original com Ricky Gervais. Por outro lado, pode sempre dizer-se que The Office é tão bom, mas tão bom, que mesmo com a canastrice norte-americana e sem a subtileza selvagem da versão britânica, contunua a ser melhor que todos os outros. Porque é (apenas) a melhor série de comédia de sempre. E o House? Onde ficou o insuperável Dr. House, da fantástica série com o mesmo nome, que se limitou a dar um ar da sua graça num francês impecável? Alguém sabe?

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

a amiga elsa

Olá. O meu nome é Vieira e, nestas férias, estou viciada na miséria espiritual das celebridades em geral e na da Elsa Raposo, em especial. Eu sei que há muita coisa edificante para ler, para absorver; tantos prémios Pulitzer, Nobel, Pessoa.... Nada. Quando chega a hora do galão com a bola ou da sandocha na praia, só me interessa saber o que anda a aprontar a amiga Elsa. Aquilo que dantes era um passatempo semanal de cabeleireiro, tornou-se, desgraçadamente, uma obrigação quase diária. Até já sei que a VIP sai à segunda, a Lux à terça e a Caras à quarta; corro para a papelaria à procura dela por entre as automotores, as pais e filhos, as melhores dietas, as como deixá-lo louco na cama e os lavores croché. Para quem não está dentro do fascinante drama pessoal da "apresentadora e empresária" (alguém???), um breve resumo: a Elsa, uma rapariga gira muito dada aos homens, aos pós e à bebida, mãe de três filhos pequenos (cuja custódia está entregue ao pai e que têm um ar triste de partir o coração, quando com ela aparecem em funções sociais), ganha dinheiro por aparecer: nas revistas, na televisão, nas festas, nas inaugurações. Durante 15 meses (não brinquem, olhem-me a tristeza do detalhe cronológico), e após a participação numa quinta das celebridades em que aparecia permanentemente desapossada das suas faculdades mentais e de voz entaramelada, a amiga Elsa namorou com o Gonçalo Diniz, um presunto actor, também ele concorrente no lixo televisivo em questão. Acabado o tempo de antena, apressaram-se a exibir a paixão, os carros e os novos projectos empresariais por tudo quanto era revista; ela, com ar de cama requentada e ele, de corno manso (já então). Até aqui, tudo bem, seriam apenas mais um casal patético, a braços com uma associação de conveniência a tresandar a falso, daquelas que dão a cacha em troca do cachê. A coisa só começa a raiar o refluxo gástrico, quando a amiga Elsa vem bolsar para as revistas que gostava de ter mais filhos. Não sei se estão a ver: num país em que a palavra mãe continua a ser a mais linda que o mundo tem, um juiz atribui a custódia ao pai. Ao pai. Mas a rapariga, que aparece quase sempre sem os miúdos e atracada a vários homens por ano, quer ter mais filhos. Sem comentários.
Bom, mas parece que a apresentadora e empresária acabou mesmo por engravidar, supostamente do actor e empresário, mas abortaria espontaneamente logo de seguida. É claro que a dor compungente do casal e o consolo mútuo que se devotaram, foram de imediato capa de muitas revistas (de todas, aliás). Após este desaire comercial (sem bebé, quantas capas de revista se perderam...), o casalinho inscreveu-se numas aulas de surf em Carcavelos e a nossa Elsa, farta de lamúrias mútuas, entusiasmou-se com os bíceps do instrutor, cuja boca resolveu devorar numa esplanada pública. Ora beijava o Çalinho no areal, ora lambiscava o badocha no restaurante por cima do areal, onde por acaso é relações públicas (ser relações públicas é a actual profissão dos invertebrados com um palminho de cara, mamas ou rabo). Pois parece que o pobre Çalinho descobriu a traição quando a viu escarrapachada numa das revistas que já tanto lhe dera de comer e foi para a varanda chorar as mágoas, local onde uma outra dessas revistas (ou seria a mesma?) lhe captou as lágrimas para a posteridade (pelos menos, para as 24 horas seguintes). Seguramente desconhecendo que os fotógrafos estariam à coca (quem diria?), a amiga Elsa apareceu na mesma varanda pouco tempo depois (ou antes, sei lá) com sangue na camisola, um ar desgrenhado e os pulsos enfaixados de uma tentativa de sucídio (digam lá se a minha obsessão não é justificada.)
A improbabilidade da história é tal, de tão deprimente, cretina e patética, que já atingiu contornos de mito urbano, correndo pelo país, em especial pelo submundo das cabeleireiras e esteticistas, várias versões alternativas. Certo é que a amiga Elsa apressou-se a prestar umas declarações exclusivas: que o çalinho era um mauzão que a agrediae que o badocha do surf, esse sim, era um homem a sério, embora o beijo na boca tivesse sido uma cena de amigos, algo muito comum no Brasil e estranho a este nosso Portugal antiquado (e sem poder de encaixe para as Elsas deste mundo, selvagens e livres, com o sexo à flor da pele). O pai do Çalinho, entretanto, veio lançar mais uma acha para a fogueira, afirmando publicamente que o filho, coitado, ia em retiro para o Brasil e que a Elsa se tinha agredido a si própria para o incriminar, a malvadona. Poucos dias passados, e a relação entre Elsa ("visivelmente debilitada") e o badocha dos bíceps "consolida-se cada vez mais", ao ponto de , na VIP desta segunda-feira, aparecerem os dois (ai, que até me custa escrevê-lo...) sentados e abraçados na escadaria do santuário de Fátima, onde foram rezar pelo seu amor. Juro. Rezar pelo seu amor perante Nossa Senhora. Francamente, isto é quase mais ofensivo para os católicos do que dizer que Jesus teve um rancho de putos ranhosos da Maria Madalena... Portanto, socorro! Ajudem-me. Eu bem sei que, ao comprar e ler este lixo, estou a alimentar a descompensada da Elsa, o cornudo do Çalinho , o Badocha emergente e todos os afins que babujam na miséria espiritual, alheados de qualquer verdade, moralidade ou integridade, mas é superior a mim, esta atracção pelo horrível. Eu dantes não era assim, a sério, isto é das férias, só pode ser das férias. Preciso de trabalho, de responsabilidades muito importantes, de prazos para ontem, da chefa a dar-me na cabeça porque da minha competência profissional depende o futuro da humanidade. É que já nem eu mesma me aguento, de tão silly nesta season.

Adenda: quando parece que não é possível descer-se mais baixo, eis que a Elsa consegue surpreender-nos: hoje, a TVMais apresenta-a, "em exclusivo", a ser operada com o fim de retirar a tatuagem com o nome "gonçalo" que terá feito no braço. Aparece na capa com ar de vítima, o braço atrapado e sentada numa cama de hospital. Resisti e não comprei. Embora não pareça, tenho os meus limtes.

Sábado, Agosto 19, 2006

E pronto, lá voltam os caçadores (cansaço...). Agora foi a vez das rolas, coitadas, que andavam tão contentes na sua vidinha de rola, ora debica a minhoca aqui, ora poisa na seara acolá. Ontem e hoje, foi um ver se te avias de abrigos improvisados pelos campos fora, a esconderem matulões camuflados, como se estivessem na guerra do Golfo à coca de obuzes. Não sei se apanharam rolas ou não, mas, cerca de vinte e quatro horas depois, continuavam praticamente na mesma posição (juro!), a perscrutar os céus de caçadeira em riste e aparentando a actividade cerebral que habitualmente devem ter, ou seja, à beira da flatline. No entanto, algures durante a vigília, eles ter-se-ão mexido, pois os terrenos acabaram pejados de latas de cerveja e cartuchos vazios, tal qual se vê na imagem. Como (quase) sempre, a verdade veio da boca das crianças - que comentaram, à triste visão de um deles acocorado entre o caniçal:
Criança n.º 1 (à ida): ca ganda cromo.
Criança n.º 2 (à vinda): ca ganda otário.
Criança n.º 3 (no dia seguinte, novamente à ida): ca ganda pacóvio.*

* Querido G., é claro que nada disto se te aplica: aposto que dispensarias o camuflado e preferirias uma bela camisa quadriculada de griffe (puro algodão), umas calças de ganga surradas e umas botas caneleiras bem ensebadas, e que pedirias educadamente às rolas que morressem por ti (o que elas, ao te verem assim de giro e de louro, certamente fariam de bom grado). ;)

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Parque de gente jurássica

"Nesta terra de costas viradas para o mar onde gasto os verões, tropeço volta e meia em pedacinhos fossilizados de dinossauro que guardo ciosa, ciente da maravilha que é cada pequena descoberta (um dente, um ovo, uma garra...). Aqui, onde em tempos terá ocorrido uma espécie de woodstock triássico que culminou num cataclismo natural (ou, quem sabe?, numa orgia que correu mal), um passeante incauto tropeçou um dia numa gigantesca coluna vertebral enterrada à beirinha da praia. Passou a palavra e logo chegaram, de todo o mundo, especialistas no escarafuncho da crosta terrestre, é um herbívoro e dos grandes, deitaram-se a adivinhar. O poder local, ocupado na recolha das derramas devidas pelas maisons edificadas nas dunas, ignorou olimpicamente a ocorrência e virou a cara ao empenho de uma dúzia de carolas que, durante meses (anos), à chuva e ao sol, desenterraram ossadas a canivete e a colheres de chá. Quando, finalmente, a última vértebra ficou a descoberto, procedeu-se a uma complexa operação de remoção, para que não se desmembrasse aquela coluna vertebral miraculosamente intacta por debaixo da terra encarnada. O esqueleto seguiu, então, para um pequeno museu na cidade mais próxima, mantido por particulares e vigiado apenas por um "funcionário" (e também um dos estudantes de biologia que ajudara a desenterrá-lo), e cuja fachada descascada pelo salitre escondia pequenos quartos onde dormiam esqueletos mais raros do que os do Museu de História Natural de Londres ou os da Galerie de l´Evolution, em Paris.
Não obstante a incrível valia interior, o merchandising do museu resumia-se à venda, num quiosque de rua, de sacos com "dinossauros" de plástico made in china e de algumas publicações indistintas sobre " a alimentação dos dinossauros" ou o "período ítriássico". Quanto à história e à vida presumidas deste magnífico herbívoro, que terá morrido sabe-se lá porquê mas quase de certeza a olhar o mar e ao qual foi dado o nome da terra ingrata onde foi achado, nada. Não obstante, e no fito do engodo turístico, à falta de melhor atracção, a cidade chama-se a si própria, pomposamente, de "a capital dos dinossauros". Um enorme cartaz, à entrada, promete diversão de parque temático no desvendar de mundos perdidos enquanto, mesmo ao lado, o esgoto a céu aberto corre por um ribeiro que transporta até ao mar as imundícies não tratadas de uma povoação inteira, colectivamente privada dos sentidos da oportunidade e do olfacto. Como é perdulária, a ignorância do nosso povo."

Agosto de 2005

Sábado, Agosto 12, 2006

Porque me sobra em ócio o que me falta em complacência e porque está demasiado calor para correr, mas preciso de gastar a bola de Berlim que neste momento se me instala nas ancas, vou dedicar-me a um dos desportos favoritos da blogoesfera: desancar nos colunistas do Expresso. Desta vez, ainda por cima, o dito merece (juro). A criatura em questão chama-se Vasco Baptista Marques, escreve no suplemento Actual e tem vinte e seis anos (o que dá vontade de estabelecer limites etários mínimos, para a actividade em questão, que se situem perto da idade da reforma... do Sócrates). O texto chama-se "As sedutoras também se abatem" (refinado, o título) e incide na decadência da beleza feminina ( e em Elizabeth Taylor como o seu expoente máximo) ou de como, na verdade e no entender daquele, as cinquentonas deveriam ser abatidas e postas fora de circulação ou, pelo menos, não se cruzarem no seu caminho, por forma a não lhe ferirem a alma sensível.
A coisa começa assim (isto é que é ter tempo livre entre mãos, viva!): "Há já duas semanas que não saio de casa por medo de me cruzar nas escadas do meu prédio com a Dona Elisabete, a cinquentona do segundo esquerdo que (...) sempre que me vê, arranja um pretexto para me arrastar até à sua sala decorada a bibelots da loja dos 300 e a fotografias a preto e branco dos seus "falecidos" (que, se não me engano, ascendem já ao número de sete). (...) acabo por dar por mim a beber um "whisky" na sala da Dona Elizabete, enquanto a própria (despida com um negligésemitransparente a transbordar de celulite) me vai mostrando fotografias da sua juventude ("Diga lá que eu não era uma estampa?") para me convencer de que ainda há uma sedutora escondida por detrás daquele amontoado de rugas. São "workshops" de cegueira feminina que me deprimem e que só terminam quando me decido a balbuciar um par de desculpas desconexas que me permitem escapar aos tentáculos daquela diva decadente, cuja capacidade de auto-análise cristalizou nos anos 60 e que me obriga a recordar uma das mais inveteradas sedutoras da história do cinema: "the one and only Elizabeth Taylor".
Daqui para a frente, presenteia-nos com uma filmografia da diva (ao alcance de qualquer dedo indicador no botão search do google), classificando a adaptação cinematográfica da perturbante peça de Tenessee Williams sobre a perversão humana, "Subitamente, no Verão passado", como um drama familiar/conjugal (sic). Adiante.
Por fim, após ter descrito a ascensão e queda daquela, enquanto actriz e sedutora, e criticado o face lifting a que se submeteu nos anos 70 com o intuito de recuperar o seu sex appeal, culmina com esta pérola de sensibilidade e bom-senso: "(...) a actriz deverá ter percebido que já não era possível reconstituir a fronteira entre o ficcional e o real e tomou a única decisão que podia tomar: foi envelhecer para a televisão, essa praia do cinema que as sedutoras baleias de outrora só atingem para preservar a memória do que foram. Ninguém lhe tinha dito que as sedutoras também se abatem, Dona Elizabete?". Para além da elegante metáfora que mete baleias e praias, e da inteligente, fina e subtil interrogação final (que, só por si, atestam do calibre básico da criatura), o que mais repugna é a tese subjacente ao dislate: a de que as cinquentonas a transbordar de celulite são seres patéticos de que urge fugir a sete pés, e que o inevitável espectáculo da sua decadência deve ficar escondido entre portas, antes que lhes dê para devorar as tenras e incautas carnes jovens que lhes surjam à frente.
É claro que o facto de esse "amontoado de rugas" que é a Dona Elizabete (personagem provavelmente fictícia, dado o nome e a descrição pobre e estereotipada) chorar sete mortos, transbordar solidão a par com a celulite e querer apenas alguém que a olhe e a ouça e que com ela relembre tempos melhores e mais felizes, nada diz ao nosso cronista. É claro que a excepcionalidade de uma mulher como Liz Taylor, que, do alto da sua magnifica soberba feminina, enfeita a decadência física com quilos de jóias e maquiagem e vestidos excêntricos feitos de propósito para as suas largas medidas, que continua a coleccionar e despachar maridos como pevides e a viver a vida como muito bem entende, que expõe publicamente, sem vergonha nem pudor, carburada a uma impressionante força interior, os vícios e as papadas, passou completamente ao lado do nosso jovem cronista, repugnado com peles caídas e dimensões avantajadas.
Reduzir a solidão e/ou a decadência da beleza física, aquela que insiste em se exibir e em não se esconder, a trejeitos sedutores que constrangem o olhar, é de uma pobreza espiritual tão grande, mas tão grande, que não deveria nunca ser paga para passar a papel e ser inadvertidamente lida por terceiros enquanto trincam prazenteiramente bolas de Berlim na esplanada, num sábado de férias.
Alguém deveria dizer à criatura (olha, digo eu!) que escrever sobre os outros quando não se lhes chega nem um bocadinho à alma, só vale a pena se se tiver muita graça. De facto, o rapazinho até poderia ter escrito que uma cinquentona de negligé só serve para comida de peixes, se o tivesse feito com o devido sentido de humor: uma boa gargalhada desculpa muitas das futilidades cretinas e maldadezinhas que nos impingem. Não é o caso: a repugnância séria que aquele devota à decadência do corpo feminino e a forma como lhe retira toda e qualquer humanidade é, essa sim, seriamente repugnante.

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Mais do que o betão pronto dos patos bravos e do que os manguitos generalizados ao domínio público marítimo e às reservas ecológicas, a verdadeira praga assassina da costa portuguesa, são os parques de campismo.
Durante a infância, tive a imensa sorte de ter tido pais aventureiros que me levaram a conhecer a Europa de tenda às costas e, mais tarde, de roulotte (como então se dizia e usava) Faziam-no por gosto, pela óbvia minimização do stress na procura da pernoita, pela sensação de liberdade que dava o rumo ao desconhecido e, claro, porque saía mais em conta. Durante esses périplos, designadamente pelo norte, lembro-me de parques de campismo que eram um verdadeiro luxo, com instalações sanitárias dignas de um spa e uma vizinhança silenciosa e civilizada, tudo animado de um contacto mais próximo, respeitador e autêntico com a natureza.
Aqui, em Portugal, e durante muitos anos, os parques de campismo foram o reduto de veraneio do pessoal das barracas e do T2 da Rinchoa, o território possível de lazer daquela franja mais desgraçada da sociedade: a que nem sequer almeja aos quinze dias na Quarteira ou Monte Gordo. Paradoxalmente, e porque eram edificados em cima de praias ainda desertas nas franjas das localidades costeiras, acabaram nas zonas mais paradisíacas do país, com os melhores acessos ao areal e as mais bonitas frentes de mar.
Intra muros, no entanto, são uma espécie de visão dos infernos: o reino da chanata e do avental, onde impera o sempiterno cheiro a sardinha e a couratos e se aglomeram as tendas de três quartos com avançado, complementadas com os inefáveis estendal de roupa, televisão e frigorífico (e/ou arca), encimado pelo naperon feito no intervalo da novela. São o exemplo acabado da transumância da periferia mais pobre, com tudo o que esta tem de pior, desde a falta de gosto à falta de qualidade de vida, para a beira-mar.
O campista português típico não quer o contacto com a natureza, quer mas é esquecer que, durante um mês, tem de estar obrigatoriamente perto dela. Porque está de férias em Agosto, tem trinta dias para gastar e éassim que faz desde sempre; porque o iodo faz bem ao reumático, os miúdos gostam de umas boas amonas e a Maria tem de molhar as varizes a ver se desincham, ruma à beira-mar com o gato, o cão, o periquito e a sogra, mas agarra no T2 e transpõe-o para debaixo de um oleado colorido, que ele, sem o conforto a que está habituado e as suas coisinhas, não passa. É por estas e por outras que um parque de campismo português, para além de ser um espaço feio e grosseiro é, também, altamente claustrofóbico: nos cerca de oito metros quadrados de chão que cabe a cada família, amontoam-se mobília, electrodomésticos e bibelots, numa demonstração de vaidade acumulada, temperada com laivos de competitividade inter-vizinhança.
O camping não é um espaço para o português melhor conviver com a natureza e, muito menos, para a apreciar: continua a haver futebol e novela, a Maria debruçada sobre o fogão e os tanques de roupa, as cervejas, os tremoços, as pevides e as aguardentes no café; continua a haver o cuspir para o chão e as transferências do Simão, embaladas num ressonar colectivo.
É claro que as praias propriamente ditas e disputadas por todos, os campistas e os outros, são prontamente invadidas por esta horda tonitruante e poluidora (já que limpinho, rebrilhante e a tresandar a lixívia, só mesmo os nossos oito metros quadrados...) que, por estar mais perto e ali mesmo à porta, chega sempre primeiro e abanca nos melhores spots com os seus panelões de caldeirada, as geleiras, os pára-ventos, os guarda-sóis, os transistóres e as bolas sempre (mas sempre) desviadas da sua trajectória natural. E não há como exterminá-los: por uma diária baratinha, sem gastos extra de gasolina nem problemas de estacionamento, é certo e sabido que, no dia seguinte, à mesma hora, lá estarão outra vez.

Domingo, Agosto 06, 2006

Abrir as memórias, espanejar as portadas, arejar as sombras dos dias úteis.

Aqui, me devolvo as proporções devidas e se me finda o ano civil e a impaciência.

Aqui, esqueço o meu nome de guerra.

Sei que, para lá da linha do oceano, em breve,

estará gasta, do uso, a ilusão de que poderíamos viver sempre assim,

a embalo dos caprichos de um gerador fraquinho,

à mercê da boa vontade dos bombeiros e locomovendo-nos a iogurtes, sandes e sal.

Aqui, onde o silêncio não constrange nem empecilha os amores maiores,

porque nenhum ruído de fundo contamina os seus puros propósitos.