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Quinta-feira, Setembro 28, 2006

Estou viciada n´A Letra “L”. Como diria o poeta sobre a Coca-Cola, aquilo, primeiro, estranha-se; depois, entranha-se. Estão a ver aquela ideia quase romântica dos filmes pornográficos, em que as mulheres se acariciam suavemente e trocam cunnilingus esforçados através dos fios dentais de renda, no intervalo zen das investidas dos camionistas? Esqueçam. Estão a ver aquele balé pseudo-lésbico muito chaaaato que serve para satisfazer as fantasias masculinas de múltiplos orifícios em movimento e em simultâneo? Esqueçam, outra vez. Na série, este preconceito quase infantil e simplório que nos leva a achar que o sexo entre mulheres é obrigatoriamente suave e delicado, cai completamente por terra. Afinal, a promiscuidade sexual e afectiva entre mulheres pode ser tão poderosa e violenta como a que (supostamente) existe na homossexualidade masculina. E depois, elas são todas tão boas - como mulheres e como actrizes -, tão intensas, que só podemos presumir que aquilo seja mesmo assim na vida real (sendo que não interessa se, de facto, é ou não). A minha favorita, são duas: a miúda cabeleireira (a falsa tímida, giríssima) e a escritora bissexual (não via uma personagem tão cabra e egocêntrica numa série televisiva desde que a Joan Collins se reformou).
A propósito, minha querida, tu reparaste-me que o Ivan, o restaurador, é na verdade uma loura lindíssima e escultural que andava a colar a relação com a irmã da outra e os pêlos da barba com cuspo?! Céus, que momento penoso aquele. Excelente!

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

no excelente Miniscente,
Luís Carmelo entrevista Luís Graça, um escritor/ensaísta de 43 anos, e conduz-nos numa viagem pelos meandros fascinantes do pensamento de um intelectual sobre ... blogues. Embora aconselhe vivamente a leitura de toda a entrevista (não saltem a parte das "senhoras que escrevem poemas", nem aquela onde ele revela orgulho na extrema originalidade que foi criar um blogue de insultos com o nome Ganda Ordinarice), não resisto a transcrever aqui parte das respostas do entrevistado, a saber:
"Os blogs são a prova mais evidente que o 25 de Abril falhou num capítulo fundamental: a Educação. Porque se a Educação tivesse triunfado, a Liberdade de Expressão seria uma coisa perfeitamente natural nos blogs. Ora, há muita censura nos blogs. Sei por experiência própria. Já fui vítima disso. Assisti a um debate na livraria Almedina (Atrium Saldanha, Lisboa) e pude constatar como algumas senhoras assumiam um blog como coutada privada, onde as críticas são mal aceites. Achavam perfeitamente natural que se apagasse um comentário, apenas por poder ser "desagradável" ou "má onda".Falamos de pessoas na casa dos 30 anos. Que deviam compreender as regras da Liberdade de Expressão."

Ora bem. Uma dessas senhoras na casa dos trinta que assumem o blogue como uma coutada privada, era euzinha. E digo já que isso da coutada privada, por acaso, é verdade: não há dúvida que gosto libertar por aqui espécimes autóctones, como sejam escritores/ensaístas, de lhes conceder umas horas de avanço e de, depois, lhes dar caça. Dá-me um grande gozo. Também é verdade que estou na casa dos trinta e ainda bem que o Sr. Luís Graça reparou (é um alívio: temo sempre que me achem mais velha, é uma nervoseira que nem vos digo).
Bom, mas, portanto, depreendo que o senhor ache que eu e a Rita (as duas "senhoras" presentes na Almedina), por sermos mais ou menos contemporâneas do 25 de Abril, tenhamos a especial obrigação de interiorizar, com muita força, o conceito de "liberdade de expressão" no seu sentido absoluto, ou seja, como uma grande rebaldaria.
Ora isto, para mim, não faz sentido. o Sr. Luís Graça parece não entender que, por alturas do 25 de Abril, a minha querida Rita estava mais preocupada com a introdução aos sólidos e eu (uns aninhos mais velha, verdade se diga), mais preocupada com os mistérios do ABC (a preparar-me para um dia mais tarde poder desancar alegremente em escritores/ensaístas) do que, propriamente, com as conquistas da liberdade.
No mínimo, isto demonstra uma fraca psicologia: é natural que tenda mais para o excesso, quem já viveu no defeito, na precaridade. Os meus pais, por exemplo, chateados pela PIDE até à medula, são hoje infinitamente mais liberais e compreensivos para com a livre expressão da boçalidade, do que eu. Para eles, que não podiam ler alto um poema de Neruda, qualquer forma de liberdade é boa, mesmo aquela que não presta. Habituada a presenciar o esbanjamento dessa mesma liberdade em cretinices várias, eu, ao pé deles, sou uma porca fascista reaccionária. Tenho, do conceito, uma noção restritiva, refinada e lapidada pelos disparates dos outros que sou forçada a engolir. Aliás, é uma maçada, que por causa do 25 de Abril, tenha que gramar com o que pensa o Sr. Luís Graça. E, pior que isso, que não haja ninguém que me amarre as mãos e me impeça de estar aqui a perder tempo com ele, mas enfim.
Porque, no fundo, vejamos: é o facto de eu achar que a Liberdade de Expressão deve servir, essencialmente, para actividades construtivas, que me impede de chamar burro ao sr. Luís Graça. Pois não: nunca o faria (não insistam).
Mas também não me vou dar ao trabalho de lhe explicar porque é que a minha liberdade, como qualquer direito fundamental, tem correlativos certos deveres para com os outros, que não estão obrigados a aturar-me. E que a censura, perante a boçalidade alheia, não é censurável. E que ter uma "coutada privada" também é um exercício de liberdade. Não, não sou eu quem lho vai explicar, porque, nestas coisas, é mais ou menos como tentar fazer mudar de ideias a quem defende que o Bush é que teve a culpa do 11 de Setembro: não só não convencemos ninguém, como ainda nos irritamos e ficamos com dor de cabeça.
Mas então, perguntam-me vocês, se não é para contraditar o senhor nem para lhe chamar nomes feios (já disse: não insistam), para quê chamar a atenção para a entrevista? Se não vai haver sangue, o que é que aquilo interessa? Bom, na verdade, o que eu queria mesmo era mostrar-vos esta parte, que achei deliciosa:
"Mais curioso: alguns bloggers que têm blogs sobre sexo, com linguagem crua e humorística, são os primeiros a praticar a censura. Exemplo: corrigi de forma divertida uma profusão enorme de erros ortográficos nos comentários. As minhas correcções foram apagadas e recebi um mail a explicar-me que era chato corrigir os erros."
Dei por mim a pensar nesta pungente confissão. Pungente e enigmática. Que terá o sr. Luís Graça querido dizer, exactamente? Que quem escreve sobre sexo dá mais erros porque, compreensivelmente, está com a cabeça noutro lado? Que, na cama, dois é bom, mas três (se contarmos com o sr. Luís Graça) pode ser demais? Que quem usa uma linguagem "crua e humorística" tem menos pejo em mandar pastar um corrector ortográfico indesejado que faz pop up como um virus? Que o sr. Luís Graça é, na verdade, a famosa e misteriosa personagem Deniz Costa, o terror das caixas de comentários? Achará o dito senhor que quem escreve sobre sexo deveria obrigatoriamente aceitar e incorporar no seu blogue os comentários boçais dos energúmenos pervertidos que surgem como fungos sempre que o tema é... sexo? E porquê? Será porque, no fundo, na cabeça do Sr. Luís Graça, um texto cru sobre sexo está mais perto de poder/dever ser censurado do que um outro sobre lavores femininos e que, por isso, a censura exercida pelo/a autor/a do mesmo lhe surge como um paradoxo maior? Será que, no fundo, o Sr. Luís Graça é um moralista disfarçado? Sim, será?...
Posso bem ser uma trintona ingrata e mal-educada que passou pelo 25 de Abril a recitar a tabuada do dois, a beber ucais de chocolate e a tirar macacos do nariz, mas hoje reconheço-lhe, pelo menos, este mérito: o de me provocar um grande desinquietação cá dentro, sei lá, assim uma espécie de formigueiro agradável, o conseguir, através de uma exegese interpretativa mínima, ficar mais perto do pensamento dos grandes homens.

Terça-feira, Setembro 19, 2006

o apito pariu um rato?

O povo exalta-se ou exulta, consoante os ventos informativos: parece que o processo apito dourado vai ao ar! A Lei de nada vale pois é inconstitucional! Os malandros/espertalhaços/heróis (escolher uma) dos árbitros acusados vão safar-se! A nossa Justiça é uma farsa! Um embuste! Bem, não digo que não seja, no entanto, deixem-me só largar aqui umas achazinhas jurídicas para esta fogueira e isto, só porque não gosto de me sentir manipulada pelos media, muito menos sabendo que os outros, pela sua ignorância funcional, ainda o são mais.
Então, é assim. Embora um bocado às cegas, dado que não conheço o processo e pouco li sobre o mesmo na comunicação social (e o que li foi devidamente filtrado, pois desconfio), presumo com alguma segurança que os árbitros que agora, supostamente, correm o risco de ir em paz tenham sido acusados de corrupção, ao abrigo do disposto nos art.ºs 2º e 3º do D.L. 390/91, de 10/10 (Corrupção no Desporto). Ou seja, existem indícios de que, naquela qualidade, terão aceite vantagens patrimoniais que não lhes eram devidas com o fito de alterarem ou falsearam o resultado de competições desportivas e, assim, praticado um ou mais crimes chamados específicos próprios, ou seja, que só podem ser assacados a pessoas com uma determinada qualidade (neste caso, a de árbitros, dirigentes desportivos, treinadores, etc.). Shegue...shegue...
Ao mesmo tempo, o Código Penal (CP) prevê o crime de corrupção passiva tout court que, embora mais abrangente, também é especiífico próprio, pois só pode ser praticado por funcionários. No entanto, é comummente aceite nas doutrina e jurisprudência que deve ser dado ao conceito de "funcionário", que surge no art.º 386º deste diploma, uma interpretação lata: "É funcionário público para efeitos penais todo aquele que é chamado a desempenhar uma actividade compreendida na função pública ou que, nas mesmas circunstâncias, desempenhe funções em organismos de utilidade pública ou nelas participe, e isto mesmo que tenha sido chamado provisória ou temporariamente, e ainda que não seja remunerado" (diz Maia Gonçalves, um guru destas coisas, in Código Penal Português Anotado e Comentado, 14ª Ed. pág. 997).
Ora bem. A Federação Portuguesa de Futebol é uma entidade privada, mas de utilidade pública ( art.º 2 e 3 do D.L. 460/77 de 07/11), à qual compete a "gestão da Arbitragem" (vem no Regulamento da coisa...). Não é preciso enviesar muito o raciocínio para chegarmos à conclusão de que, para efeitos de imputação de um crime, um árbitro possa ser considerado um funcionário, certo? Shegue, shegue...
Por outro lado, como se depreende do teor do n.º 3 do art.º 358º do Código de Processo Penal (CPP), o Tribunal, tanto em sede de Instrução como de Julgamento, é livre para alterar a qualificação jurídica feita pelo MP e para pronunciar ou condenar por crimes(s) diferentes(s) dos constantes da acusação. Se, quanto aos factos, não pode verificar-se nenhuma alteração substancial, já no que concerne ao enquadramento jurídico dos mesmos, qualquer alteração é possível (em dependendo do que entretanto ficar, ou não, provado, claro). Shegue...shegue...na direcção do café do barbosa...
Isto significa que o juiz pode sempre concluir que os actos que o arguido praticou, configuram o crime B e não o crime A. Apliquemos agora isto à situação de um diploma cuja inconstitucionalidade tenha sido alegada a meio do processo. No despacho instrutório ou no Acórdão, nada impede o juiz de afirmar que o arguido y não praticou o crime de corrupção no desporto (porque, por exemplo, o diploma que o prevê foi declarado inconstitucional), mas que a sua actuação não deixa de poder subsumir-se ao crime de corrupção passiva para acto ilícito, previsto no art.º372º do CP.
Portanto, assim a uma primeira vista, não me parece de todo descabida que uma acusação ou pronúncia tendo por base o decreto-lei da corrupção desportiva, possa ser judicialmente convolada para uma condenação por corrupção passiva nos termos da lei penal geral. Teoria absurda? Talvez. E sim, o processo "apito dourado" até pode ir ao ar, como diz por aí o povo que, na falta de conhecimentos jurídicos e de ideias de sua lavra, adora papaguear os media (mesmo quando apregoam a certeza de uma inconstitucionalidade ainda não declarada). Mas também pode não ir. Até porque a complexidade actual dos ordenamentos jurídicos permite isto mesmo: que insignes jurisconsultos sejam pagos a preço de ouro para descobrirem brechas na lei e que outros sejam igualmente bem pagos (ou melhor) para descobrirem brechas nas brechas.

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

quem me acompanha
há algum tempo sabe que, no início deste ano, numa ataque de farturinha e de cansaço, apaguei dois anos de blogue, para me ter arrependido quase logo a seguir. Uma vez que apaguei mesmo tudo e que, na cache do google, se encontram arquivos só a partir de meados de 2005 (acho), e porque inserir os posts um a um (mais de quinhentos), nas datas respectivas, seria tarefa impossível, optei por uma solução intermédia, que me parece "aproveitar" da melhor forma o que aqui escrevi: de vez em quando, reporei aqui aqueles que mais gostei de escrever, os meus "favoritos"; por assim dizer (para além dos contos, ali ao lado, já quase todos online). Por isso, não estranhem se alguns textos vos soarem mais familiares nem, se nunca os leram, que estejam datados de 2004 e 2005. É uma forma de manter as memórias que, afinal, e depois de ter pensado melhor, não me apetece nada apagar.


(Dali, "A Persistência da Memória")

adenda: Graças ao querido e sempre atento , soube que, afinal, todos os arquivos se encontram aqui (pensava que seriam apenas alguns, mas parece que está lá tudo). Basta entrar no Wayback e "navegar" pelos arquivos que se encontram na side bar, à direita.

estertores franciscanos*

"Lembro-me de ter visto na televisão um programa, em que uma gralha, equilibrada no braço de um semáforo que atravessava a via rápida, num momento calculado, deixa cair no asfalto uma noz que tem no bico e vê-a ser esmagada pelo pneu de um carro que passa. Depois, num ruminar estratégico digno de um Júlio César às portas da Gália, a gralha espera que o sinal fique encarnado e mergulha em voo picado para o chão, recolhendo apressadamente os bocados esmagados da noz. Recordo-me de uma outra que, em cativeiro, olha com olhos de ver um tubo de vidro estreito em cujo interior é colocado um cesto pequenino com comida. O cesto tem asa e tudo. Em cima do tubo, na horizontal, está um arame fino e direito com cerca de vinte centímetros. A gralha olha para aquilo e pensa, imagina, coloca hipóteses, xacáver. Primeiro, pega no arame com o bico e introdu-lo certeiro no tubo, mas não consegue sacar o cesto. Tira o arame, pensa mais um bocadinho, huumm, voa com ele no bico até ao poleiro, preso a uma parede comfissuras, e enfia-o num pequeno orifício. Empurra-o com o bico até lhe curvar a ponta em forma de anzol, retira-o, voa de novo atéao tubo, espeta com o arame por ali adentro e engancha a parte retorcida na pega do cesto, puxando-o para cima. Come o que estava lá dentro, ufana de se ver tão esperta. Enquanto engole mais uma garfada de bife do lombo, recorda os chimpanzés, capazes de interiorizar um léxico superior a sete mil palavras e que, carregando nas letras de uma máquina, compõem frases como eu quero água (assim mesmo, com sujeito, predicado e complemento directo), gosto de ti ou estou triste. Sim, esses mesmos, que encarceramos nos zoos para gaúdio das nossas criancinhas, e que embalam os seus bebés, atrás das grades, como nós as embalamos a elas (parecendo, até, que também lhes cantam ao ouvido). E as formigas? que, em África, constróem formigueiros gigantes dotados de sistemas de ar condicionado cuja sofisticação é digna de um open space no centro de Manhattan. E a minha cadela? Uma pequinois gentil que um dia se travou de amores por uma ninhada de gatinhos órfãos com empenho tal que ela, que nunca havia sido mãe, encheu as maminhas de leite e alimentou-os a todos até lhe terem o dobro do tamanho. Ainda hoje, quando brigam com o outro cão cá da casa, preto e grande, ela atira-se-lhe ao focinho atéque ele, esparvoado com tamanho arrojo, desiste dos seus intuitos trucidantes e mastigadores. E lá acaba a lamber os gatos, como uma mãe que seca as lágrimas do filho com as costas da mão e lhe sussurra pronto, pronto, já passou. Também já vi um polvo a desatarrachar um frasco com os tentáculos e a abrir a fechadura de uma porta de entre várias, aprendendo que era aquela que lhe permitiria sair (ou entrar). E bastou-lhe uma única vez , sem estímulos repetidos ou qualquer outro engodo pavloviano, uma única vez, caraças!, e o bicho ficou a saber para sempre qual era o caminho da liberdade. E aquele mistério dos elefantes, que vão todos morrer ao mesmo sítio, e o das baleias, que se suicidam aos molhos de encontro à praia, e o dos golfinhos, que derramam ternura sobre crianças doentes e as ajudam à cura, sem nada pedirem em troca. Por tudo isto, lamento não me conseguir livrar do pé para a mão de tantos milénios de escravidão à voragem carnívora que os antepassados me inscreveram no ADN, e de me vergar amiúde ao peso de uma gula que me deixa à mercê de um bom bife do lombo com molho à café. Às vezes, no entanto, sou atacada pela calada da noite por estertores franciscanos e dou por mim a pensar que isto de comer animais mortos que são quase meus irmãos e que de mim diferem, apenas, por milionésimos de ADN, é assim como que uma espécie de canibalismo e que, para além de os comer, ainda os destrato com aquela sobranceria própria dos humanos, o que não está nada bem. O prólogo é sempre o mesmo: determinada, a cada ataque sorrateiro de culpa, acabo na fila d´Os Tibetanos e finjo proveito, embora quase vomite com a consistência espumosa do tofu e do seitan. Ao fim de uma semana de jejum vegetariano a experimentar todas as receitas de massa e batata com courgettes que me aparecem nas revistas femininas, começo a ter sonhos eróticos com bitoques e alheiras de caça, de preferência com ovo a cavalo, e capitulo. Não sem deixar de admirar profundamente quem o consegue, diga-se. Acho, aliás, que um vegan convicto se encontra num estádio superior da existência: mais perto da perfeição, de Deus ou seja lá do que for que represente aquele todo místico em que muitos acreditam (e que tem a obrigação de ser bem melhor que a mera soma das suas desgarradas partes). Mas eu por aqui continuo, no meu limbo moral privado, resignando-me à ideia de, na reencarnação seguinte, vir a este mundo sob a forma de uma aranha peluda, nojenta e potencialmente espezinhável logo na primeira semana de vida. Não obstante esta fraqueza assumida, intuo facilmente que somos todos muito estúpidos e que, se não conseguimos deixar de os fazer sofrer para nosso prazer (nos matadouros, nas touradas, na caça, no circo), ao menos que não estejamos tão contentes com a nossa presunçosa superioridade no pódium da cadeia alimentar e tão convencidos de que somos muito mais espertinhos do que eles, os animais, essas bestas irracionais que sobreviveram ao dilúvio na arca flutuante de um velho lunático, apenas para se reproduzirem e nos servirem.  Porque (quem sabe?) talvez as preguiças gostem de sexo tântrico e por isso demorem horas a assegurar a sua descendência; e talvez os leões, bichos gregários por natureza, tenham problemas com a sogra e já não a possam ver à frente; e os ursos, quando hibernem, sofram de claustrofobia e depois tenham pesadelos; e os pinguins, todos iguais e aos milhões, tenham crises de identidade; e os salmões, tenham tendências depressivo-suicidas e por isso venham morrer rio acima; e as baleias, saibam de facto cantar , e algumas de entre elas sejam prima donnas com direito a privilégios especiais de diva e a camarote individual; e as coelhas só tenham orgasmos múltiplos e por isso fodam tanto; e os gatos sintam um profundo desprezo pelos humanos e por isso não os olhem quando eles os chama; e as formigas não gostem de estar sozinhas; e as toupeiras sofram de agorafobia; e os cães se comportem como groupies à beira da histeria porque nos adoram e quando crescerem querem ser como nós, as pessoas, os seus maravilhosos donos. Quem pode garantir que não seja assim? Quem?  Talvez que o universo em que se move esta Terra onde nos encontramos mais não seja do que um grão de poeira reflectido na retina de um grilo e, este, um habitante microscópico de um outro planeta, em órbita numa galáxia diferente e encaixada num universo muito maior. Portanto, embora aí apanhar do chão um bocadinho de humildade, dessa que anda por aí espalhada, que todos espezinham e ninguém quer, assumir a nossa ignorância no que respeita a esta merda toda e ter algum respeitinho, designadamente, pelo grilo."

*algures em 2005

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

na Única de há duas semanas, Miguel Esteves Cardoso (MEC) escrevia assim:
"A MINHA posição é muito simples: apoio sempre Israel, aja mal ou aja bem e haja lá o que houver. Suponho que isto faça de mim, segundo a óptica da época, um fundamentalista, tão mau como os terroristas: não me importo. Cada um é livre de pensar o que quer."

Volta e meia, e desde que a li, dou por mim a cair nesta frase. Hoje, e a propósito do 11/09, resolvi repescá-la dos arquivos do Expresso Online. Porque é isto, é mesmo isto e quem não gosta, olhem, temos pena. Acrescentaria (pensando bem, não: não é um acrescento, estamos a falar do mesmo), que estou sempre, SEMPRE do lado do mundo livre, o ocidental, mesmo quando não tem razão e entram os excessos dos guantanamos e dos iraques ao barulho. E estou contra quem o quer destruir. Ao meu mundo. Um mundo que permite, ao MEC, escrever estas coisas e, a mim, concordar com elas, anuir, subscrever, copipeistar, e chamar de filhodaputa para baixo aos animais que rebentaram com as torres e que hoje, seguramente, em vez das setenta virgens prometidas, ardem eternamente nos quintos dos infernos.


Sexta-feira, Setembro 08, 2006


e agora
vou ali até ao Napron dançar um bocadinho e já venho.
é panamense
e inventou a chamada "salsa com consciência", que apela não apenas ao corpo, mas também ao cérebro de quem a ouve. O resultado poderia ser uma bela seca politicamente correcta embrulhada numas congadas comercialóides, mas não. Ele é mesmo bom, a produção dos discos é irrepreensível e as letras, apesar de socialmente comprometidas, são quase sempre giras. Licenciado em Direito, concorreu às eleições presidenciais em 1994, depois da queda de Noriega. Perdeu a parada, o que até nem foi mau: ficámos nós, os taradinhos por música latina, a ganhar. Voltemos, pois, ao corpinho ensonado a abanar na secretária logo de manhã, ao ritmo das claves de son e dos timbales; voltemos às jam sessions nos barrios latinos de Miami e niuior, e às charangas e aos septetos, nados e criados nas ruas de Havana e de Santiago. Aviso a quem me lê no local de trabalho que este blogue vai voltar a bombar em true mode, no intervalo dos cafés da manhã na pastelaria da esquina. Ruben Blades, pois então, com El Cazanguero (uma latinada pop muito dançável e muito seventies, algures entre o Santana, os Bee Gees, as bolas de espelhos, os mojitos e as cabeleiras afro).

Quinta-feira, Setembro 07, 2006

serei normal?
Não faço a mais puta ideia sobre o que seja o caso mateus. Nem quero saber.
o outro na vida deles

A vivência do espécime masculino típico* no interior do lar conjugal (tirando a parte boa, que é o aprimorar-se em brincadeiras várias nas quais dá vazão ao complexo de Peter Pan) é deixar peúgas e cuecas penduradas no varão dos cortinados, o suplemento de domingo no bidé, o prato com os restos de comida na mesa e o tampo da sanita levantado, mal reparando no pó acumulado no topo dos armários, no lixo à cabeceira da cama, nas manchas de pasta de dentes no espelho da casa-de-banho, nos cinzeiros por despejar e na sujidade acumulada nas lâminas de estore.
Esta criatura autóctone não se preocupa igualmente por aí além com o calcário na máquina de lavar, com os quadros tortos na parede nem, muito menos, com a desconformidade entre o padrão das cadeiras e o dos cortinados. Quando chega a casa (para além da brincadeira que ressalvei supra, notem!) quer a comida na mesa, o colarinho da camisa engomado e o comando da televisão na mão: o resto pode ser-lhe mais ou menos agradável, mas é-lhe acessório.
Por isso, companheiras, amigas, palhaças, não se deixem enganar: um homem, quando debruça a sua máscula atenção sobre as amostras de tecido que vos trazem, a vós, no limbo da indecisão e diz, convicto, preferir as flores roxas aos quadrados azuis, está a mentir. Bom, não será bem mentir: o que se passa é que, confrontado com uma opção estética que nada lhe diz nem lhe acrescenta, ele faz mentalmente um undolitá e seja o que deus quiser, meia bola e força e lá vai alho.
E isto porque, na verdade, a maior parte dos gajos não querem saber para nada da cor do sofá nem da largura do friso do azulejo da cozinha. Consoante o estado de necessidade em que se encontram, fingem-se interessados e participativos nas escolhas domésticas porque: a) gostam genuinamente de nós e não nos querem magoar com o seu desinteresse; b) não querem que fiquemos aborrecidas porque pretendem qualquer coisa de nós (hipótese não necessariamente cumulativa com a anterior), c) quanto mais depressa fizerem uma escolha, mais cedo deixamos de os chatear para que eles se possam debruçar na manutenção e melhoramento daquilo que, de facto, lhes interessa: o carro.
Esta relação inversamente proporcional entre o desvalor da casa e o valor do carro é transversal à sociedade e aplica-se a todos os felizes possuidores de uma pilinha, de uma casa e de um carro, independentemente do seu lugar na cadeia alimentar.
O carro é o castelo de um gajo. Os putos, que em casa bem que podem andar a limpar as mãos lambuzadas de bolycaos à parede da sala, não têm ordem de tocar com um dedo que seja no painel de instrumentos do carro. A dedada na pintura, o roçar de coisas nas portas, o comando que não abre à primeira, os buracos nas estradas... são verdadeiras facadas. Comer dentro do carro é proibido e, quando não o é por motivos de força maior (como uma longa viagem), lá vão eles espreitando pelo retrovisor a cada dez segundos, temendo pelas migalhas e pelos restos de sumo nos interstícios dos seus bem amados estofos.
Se, quando saem de casa, fecham a porta com estrondo, quando entram no carro, fazem-no com delicadeza para não o ofenderem com brutalidades desnecessárias. Aliás, remoem rancorosamente e em surdina contra quem nele entre e deixe cair a porta com demasiados decibéis e displiscência e sem o necessário temor reverencial. Se, no supermercado, não sabem distinguir um sonasol para a loiça da cera para o chão, já na secção automóvel conhecem todos os detergentes para estofos (em pele e tecido), os polidores para o capô, os abrilhantadores (para cromados e vinil) e as tintas reparadoras em spray e nada de falsas camurças, que para puxar o brilho como deve ser, só das caras e verdadeiras.
Capazes de ressonar a noite inteira enquanto o filho recém-nascido se esgoela ao colo da gaja-mãe, saltam esbaforidos da cama a meio da noite só para se certificarem de que o carro está trancado ou de que não foi assaltado. Podem esquecer-se de pagar o condomínio e a autárquica, mas têm sempre o selo e a inspecção periódica em dia e os níveis dos pneus e da água nas medidas exactas (se não têm, stressam e infernizam-nos o juízo, culpando-nos do facto).
Embora concordem geralmente com as nossas opções estéticas (ver supra), dentro do carro são uns ditadorzinhos e não permitem, sequer, que escolhamos um desodorizante-penduricalho em forma de pinheiro, tem que ser o do volante da Ferrari.
Não sabem em que gaveta do seu próprio quarto se guardam os toalhões de banho mas, no porta malas do carro, têm sempre um stock considerável de toalhinhas e toalhetes para o caso de serem precisos, que isto nunca se sabe, pode acontecer um acidente, uma criança a bolsar, umas gotas de suor ou um convidado inesperado.
Hesitam seriamente em deixar que o conduzamos, ao seu castelo, mesmo que tenhamos de os levar de urgência ao hospital pois estão a sufocar com um pedaço de bife atravessado na garganta, e choca-os profundamente o estado de abandalho em que nós, gajas, geralmente temos os nossos; aliás, encaram cada pacote de bolachas entornado, chupeta caída, biberão virado, marca de batôn no tablier ou monte de roupa amontoada no banco, como uma ofensa pessoal, uma espécie de afronta à ordem natural do universo. No fundo acham-nos umas porcas desmazeladas a quem deram pérolas e que melhor estaríamos se fossemos de autocarro.
E nós, parvas, desconfiadas porque o gajo chegou atrasado e, na maior parte das vezes, ele ficou mas foi a polir a consola, a sintonizar o rádio, a endireitar a antena e a catar noddys dos intervalos dos bancos, enquanto resfolega de indignação.
Assim é, companheiras: muitas vezes, a outra na vida dos nossos homens não é um avião nem tem necessariamente uma boa rodagem, embora também tenha um motor.

*Atenção! Este texto retrata o homem comum, o bonus pater família, ou seja, o homus namoradus ou casadus há anus - o que exclui, automaticamente, o homus casadinhus de frescus, o homus demasiadus sensibilis e os psicóticos anti-germes que limpam as dedadas dos copos saídos da máquina e que adormecem a murmurar rosebud.

(também na SOCA)

é no que dá, pedir com muita, muita, força...

Regressam os 2 DJS do C*******! (Nuno Miguel Guedes e Zé Diogo Quintela).
No sítio do costume, tudo do costume pelo preço do costume!
Sexta-feira, dia 8, pelas 00.00, no Napron (R. da Barroca, ao Bairro Alto)
A dupla que está para o DJaying como os icebergues para o Titanic! A não perder (até por que com sorte, eles não voltam). Correio e pedidos
para: djsdocaralh@gmail.com