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Terça-feira, Maio 29, 2007

Antes de começar a histeria do costume, vamos lá a (primeiro) ler o Acordão na sua totalidade, sim?
Ufa, até que enfim, alguém! Embora isto seja lamentável.

Porque ela é linda, João.

Eu até gosto de Helena Roseta; é inteligente, esperta, tem convicções e põe muitas vezes o dedo na ferida, apesar de não ter sido autarca assim de muito boa memória. Agora, isto de sair do P.S., que não a quis como sua candidata (porque, simplesmente, tem melhor), apresentando-se como independente, soa um bocado ao cão que morde a mão que lhe dá de comer. Roseta não sai porque esteja desiludida, tenha deixado de acreditar no programa do partido, ou coisa do género. Não: sai, porque tem uma ambição política específica. Acontece que a sua ambição vai ser claramente prejudicial ao P.S., pois roubar-lhe-á votos e, se calhar, impedirá que António Costa tenha uma maioria decente que lhe permita mexer a sério em Lisboa. Ainda por cima temo que, como vereadora, venha a ser um segundo "Zé": um(a) empata insuportável, apesar dos bons propósitos. A falta de lealdade é uma coisa trágica, muito feia, e ninguém deveria ser premiado por isso. Desejo-lhe votação zero.

Segunda-feira, Maio 28, 2007

o post sobre a notícia sobre a falta de notícia

Por entre a histeria mediática que começa a feder e a fazer-nos perder a noção do que é verdadeiramente importante, estranhei, a frieza ensaiada dos pais de Madeleine, a desresponsabilizarem-se perante as câmaras de televisão. Dir-se-á que tudo lhes é permitido, que tudo vale, para que a questão não caia no esquecimento e para que, por momentos, se aliviem do terrível fardo que carregam. Mesmo que, apenas, para que as pessoas (sempre tão fáceis a apontar o dedo) discordem, critiquem, acusem, estranhem: enquanto o rosto daquela criança estiver bem vivo na nossa memória, nas nossas palavras, quem sabe um de nós não a reconhecerá na esquina. Basta uma hipótese, por mais que remota. Futebolistas, actores, ministros, príncipes, o Papa: venham eles. Entretanto, a nossa desastrosa polícia, pressionada pelo exibicionismo do modus operandi anglo-saxónico, aparece três semanas depois com um extemporâneo "aviso" sobre um alegado "suspeito", cuja descrição corresponde para aí a um terço da população portuguesa. E depois os media, que entretanto já falam da falta de assunto dos media. E nós, que já escrevemos sobre os media que falam da falta de assunto dos media. Sim, tudo lhes é permitido, a eles, aos pais, em nome desta dor que deve ser a maior de todas, um luto jamais cumprido, a vida a oscilar entre o puro desespero e a mais absurda das esperanças. Não quero nem imaginar. Mas começa a desenhar-se-nos a sensação de que tudo isto está a ficar fora de controlo, a distanciar-se do seu propósito inicial. Isso é bom ou mau? Se pensarmos que todo este barulho poderá ter um, mesmo que apenas ligeiro, efeito dissuasor em casos futuros, já terá valido a pena. Sim, talvez por aí. Os potenciais raptores, sabendo que o mundo acorda agora mais atento, mais alerta: em cada cidadão um vigia. No entanto, há qualquer coisa de quase imoral, na cronometragem mediática do espectáculo da dor dos pais e da solidariedade alheia, que pode, a curto prazo, pôr em causa os sentimentos naturais de empatia e de compreensão, por parte da opinião pública para com o casal McCann. Não se trata da desproporção comparativa dos meios empregues nesta investigação(ou, pelo menos, não deveria sê-lo): não é neste caso, que tais meios são de mais; é nos outros casos, anteriores a este, de outras crianças desaparecidas (e não só portuguesas: esta situação não tem paralelo no mundo inteiro), que tais meios terão sido, lamentavelmente, de menos. Mas começa a notar-se uma inevitável saturação da atenção das pessoas que, tarda nada, começarão a fechar os olhos, a olhar para o lado e a mudar de canal, fartas de missas, passeios, viagens, cenas do dia-a-dia, directos do aldeamento e do portão fechado de uma vivenda onde nada acontece. A continuar assim, a acentuar-se este efeito perverso, até o famoso ursinho de peluche nas mãos daquela mãe será, um dia e injustamente, apontado como um recurso fabricado para manter viva a compaixão pública, entretanto tornada céptica. Vantagens de facto (no sentido de, por via delas, alguém ficar efectivamente mais perto de saber o que aconteceu à criança) neste insuflar artificial da tenda do circo mediático que envolve o casal, é que me parece não haver lá muitas.

Sexta-feira, Maio 25, 2007

e já agora...
... Mário Lino pode ser um rústico, mas tem toda a razão. O resto é, de facto, paisagem.

Quarta-feira, Maio 23, 2007

o Eduardo Sá
mete medo. A sério.

Segunda-feira, Maio 21, 2007

Family Guy: Best of Stewie (1)

orfão

(chegada e abancada a Primavera, é sempre a mesma coisa: a vida, que me reclama)

Quinta-feira, Maio 17, 2007

Gosto muito
deste bikini,
da Loja da Rita.

Terça-feira, Maio 15, 2007

Senhores jornalistas, vá, mais uma vez, repitam comigo:

Os suspeitos de crime, os arguidos, são interrogados, ouvidos em interrogatório;
As testemunhas, são inquiridas, ouvidas em inquirição.

Segunda-feira, Maio 14, 2007

o nó

Ele olhava-a como se nunca a tivesse visto antes. E, na verdade, não tinha, não assim, pensou: tão frágil, amorosa, as carícias a quebrarem-se-lhe nas mãos suadas, como vidros finos; os dedos errantes e fugidios, a voz escondida lá no fundo, um nó de marinheiro, daqueles corrediços, sem saída que não a que têm para dentro de si próprios. Ela rondava-lhe o olhar, contornava-o como se uma rotunda, guiava pela cara dele, ora acelerando nas sobrancelhas, ora travando a fundo sobre a cana do nariz, investindo contra o queixo, derrapando boca abaixo. O cabelo dela, de uma estranho louro quase verde, tanto lhe cobria as feições, num pudor compungido, como lhe descobria a expressão, afivelada numa determinação quase mística, à beira do fervor religioso. Então, ficamos assim, por aqui, atreveu-se ele. Pois, parece que sim, respondeu-lhe ela, a voz a soar-lhe de outrem, num gorgolejar desconhecido e longínquo, embora irreprimível. E as minhas cois… Podes ir buscá-las quando quiseres: hoje, amanhã, para a semana, interrompeu-o, arrebanhando coragem. Tens a chave, podes entrar à vontade, pelo menos, por enquanto. Ele anuiu com a cabeça, um huhum meio engolido, meio regurgitado, como um comprimido grande que não desce, que se nega ao caminho, nem para cima nem para baixo, nem para dentro nem para fora, come um bocado de pão que isso passa. Bom, então…, repetiu ele, olhando em volta, como se alguém o chamasse, olhando para lá dos carros, dos prédios, das antenas de televisão, num pedido calado de socorro. Ninguém parecia perceber como estava doente, terminalmente doente; ninguém parava para o ajudar, nem chamava a ambulância; bastaria um telefonema, porque ele ali, em coma profundo, paralisado, ferido de morte, quase um último suspiro. O mundo com as cores de sempre, num corropio desacautelado e ele, incontinente, epiléptico, exangue, as tripas de fora, os estertores finais. O cabelo dela voltou a tapar-lhe por momentos as feições, agora esbatidas, quase impressionistas, e, também por momentos, ele voltou à vida, distraído com aquele bailado esverdeado, as mãos num latejo, a formigarem, comichosas, com a imperiosa necessidade de afastar uma madeixa colada ao canto da boca dela, essa boca que encerrava certezas tão absolutas. Aparece quando quiseres, repetiu ela, impessoalmente, dando o mote, o sinal, o pontapé de saída, enquanto esboçava uma festa ao de leve na sua barba mal feita, o alívio estampado no sorriso sincero, como se refém resgatada. Deu-lhe com cuidado as costas, quase com delicadeza, e afastou-se, os saltos a baterem na calçada e ala que se faz tarde, tenho muito que fazer, hoje (e amanhã e depois, e em todos os dias que se lhes seguirão). Ah!..., como tenho coisas para fazer!, pensou. Coisas. Ao fim da rua, já gargalhava, quase corria. E ele, a ficar para trás, a olhá-la como se nunca a tivesse visto antes: frágil, amorosa, as carícias caídas no chão, partidas de vez, sem conserto; as mãos agora secas, os dedos firmes como pinças, a voz resgatada aos fundilhos do passado, o nó desfeito.

maio.

flores. filhos.

maio.

ninhos.

Quinta-feira, Maio 10, 2007

A propósito da criança desaparecida no Algarve, e das críticas ao secretismo da nossa polícia, só gostaria de lembrar que o Código de Processo Penal, no seu art.º 86º, diz o seguinte:

"1 - O processo penal é, sob pena de nulidade, público, a partir da decisão instrutória ou, se a instrução não tiver lugar, do momento em que já não pode ser requerida. (…)
4 - O segredo de justiça vincula todos os participantes processuais, bem como as pessoas que, por qualquer título, tiverem tomado contacto com o processo e conhecimento de elementos a ele pertencentes, e implica as proibições de:
a) Assistência à prática ou tomada de conhecimento do conteúdo de acto processual a que não tenham o direito ou o dever de assistir;
b) Divulgação da ocorrência de acto processual ou dos seus termos, independentemente do motivo que presidir a tal divulgação.
5 - Pode, todavia, a autoridade judiciária que preside à fase processual respectiva dar ou ordenar ou permitir que seja dado conhecimento a determinadas pessoas do conteúdo de acto ou de documento em segredo de justiça, se tal se afigurar conveniente ao esclarecimento da verdade.
6 - As pessoas referidas no número anterior ficam, em todo o caso, vinculadas pelo segredo de justiça."

E, no art.º 88º:

"1 - É permitida aos órgãos de comunicação social, dentro dos limites da lei, a narração circunstanciada do teor de actos processuais que se não encontrem cobertos por segredo de justiça ou a cujo decurso for permitida a assistência do público em geral.
2 - Não é, porém, autorizada, sob pena de desobediência simples:
a) A reprodução de peças processuais ou de documentos incorporados no processo, até à sentença de 1.ª instância, salvo se tiverem sido obtidos mediante certidão solicitada com menção do fim a que se destina, ou se para tal tiver havido autorização expressa da autoridade judiciária que presidir à fase do processo no momento da publicação;
b) A transmissão ou registo de imagens ou de tomadas de som relativas à prática de qualquer acto processual, nomeadamente da audiência, salvo se a autoridade judiciária referida na alínea anterior, por despacho, a autorizar; não pode, porém, ser autorizada a transmissão ou registo de imagens ou tomada de som relativas a pessoa que a tal se opuser (...).
3 - Até à decisão sobre a publicidade da audiência não é ainda autorizada, sob pena de desobediência simples, a narração de actos processuais anteriores àquela quando o juiz, oficiosamente ou a requerimento, a tiver proibido com fundamento nos factos ou circunstâncias referidos no n.º 2 do artigo anterior."

… o que talvez ajude a explicar um bocadinho as coisas.

(se a presente lei é, ou não, absurda e irrealista, já é outra questão.)

Mas o que me chateia, mesmo...

...é que o Canadá continue a permitir a matança anual de focas bebés e que o assunto tenha caído na rotina, com o consequente desinteresse dos media. A matança de animais para alimentar o comércio da vaidade e das superstições, é simplesmente uma barbárie, um acto de crueldade e ganância. As criaturas ocidentais que vestem casacos de pele, destes e doutros animais, exibindo-se num circo grotesco (excluo, obviamente, os autóctones que se cobrem de peles para sobreviverem), são, elas próprias, igualmente bárbaras, insensíveis ao sofrimento dos bichos, desagradavelmente fúteis. Acho, por isso, uma boa ideia, a do boicote ao Canadá, esse país chato e descaracterizado, de cidades cinzentas, e do qual se safam, essencialmente, a paisagem natural e os bichos selvagens.

Quarta-feira, Maio 09, 2007

Imparável

A Ana, a Tati,a JP e a Tuxa (umas queridas), nomearam este humilde blogue (pronto, pronto: não é exactamente humilde...) para os Thinking Blogger Awards, obrigada! Parece que me cabe, agora, nomear outros cinco. Não tenho jeito nenhum para isto, praticamente só leio os blogues da minha lista e, mesmo em relação a esses, sou relapsa e infiel. Ainda por cima, pensar é uma tarefa que, ultimamente, me custa um bocadinho, mas isto foi da pancada na cabeça, como sabem. Além disso, está muito calor. De qualquer modo, mais uma vez, obrigada!

Já a minha querida Catarina, resolveu passar-me um même, o que quer que isso seja. Aguardo instruções.

Também quero!

No outro dia vi, por acaso, o primeiro episódio de "Rome", da fecunda HBO, no segundo canal. Movida pelo entusiasmo de uma grande amiga, já tinha comprado na Fnac a primeira série, que guardava ali na prateleira, à espera de contágio. No dia seguinte, vi o episódio dois. Nessa noite, fui buscar os outros episódios, já empoeirados, à prateleira, e papei-os quase todos, até de manhã. Acabei na madrugada seguinte. A série é absolutamente espantosa. Trata de uma forma refinadamente fantasiosa, um dos momentos mais fascinantes da nossa história: o fim da Républica romana. Os personagens principais são irresistivelmente empáticos, a começar pelos tiranos e pelas cabras calculistas. Muito, muito bom. Portanto, e como diria o Manelinho, naquela magnífica anedota popular, minha querida, "Se há melancia, também quero uma talhadinha...".

Cravings I

(no Club del Gourmet, aqui tão perto)

Post it

George Michael, em Coimbra, no dia 12. Já lá estou, claro.

E agora, um pormenor íntimo: farto-me facilmente. Um dos mais eficazes aceleradores de tédio, para mim, é a espera. Detesto esperar, aguardar que as coisas aconteçam, que venham ter comigo. Acho absurdo, por exemplo, passar mais do que dez minutos numa fila de um restaurante. Vou imediatamente a outro, mesmo que pior e com menos ou nenhuma vista. Aceito mesas que mais ninguém quer, só para não ter de esperar. Isto aplica-se nos amores, nas amizades. Sou péssima em manter, em cultivar, alimentar, relações à distância. O tempo vai passando e eu distraio-me, perco a paciência, deixo de gostar, viro as costas. Porque acho que, quem gosta, procura. Eu, dentro dos limites da dignidade e do bom-senso, procuro.É assim. Não consigo gostar de, nem interessar-me por, quem nunca vejo (excepto família íntima ou amizades de infância e de juventude: laços por vezes indestrutíveis). Para gostar, tem de haver um mínimo de contacto; quanto mais vejo, mais toco, mais cheiro e mais gosto. O inverso é igualmente verdadeiro. Facilmente as pessoas de quem um dia gostei se tornam estranhas para mim. E, quando isso acontece, é favor saírem de cena, não me maçarem mais. Porque só gosto de perder tempo, ou de o matar, ou seja lá o que for, com pessoas que me dão as abébias no tempo certo, que não se cortam sistematicamente, que não estão sempre fora de cena a manter forçadamente o espaço contentor, um determinado status quo. Por exemplo, se uma pessoa supostamente amiga mora ao meu lado e, durante meses a fio, nada faz para me rever, que sentido tem, encontrarmo-nos um dia para pormos a conversa em dia? Mas qual conversa? Nada tenho para lhe dizer, a essa pessoa. Aliás, quem é, essa pessoa? Como se chama? Nada nos une, nada que importe, tempo perdido, conversa de chacha. Não tenho paciência. Desamo num instantinho, é o que é (bom, não desamo assim tão depressa como parece, mas, digamos que desamo de vez). Azarinho.

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Dos cães perigosos.

Volta e meia, ouvimos notícias sobre cães que atacam pessoas, matando-as ou deixando-as muito feridas. A minha posição sobre isto é simples: já tive um cão que todos na família adoravámos e que mandei abater. Um rafeiro alentejano do tamanho de um burro que, até ao dia em que começou a rosnar baixinho e a mordiscar as canelas das visitas, parecera apenas um abrutalhado meigo e bem disposto. Por precaução, começámos a fechá-lo num espaço vedado quando vinham pessoas de fora e a não deixar as crianças rebolar com ele pela terra, não fosse o bicho chatear-se, vá lá a saber-se porquê. Ficou cada vez mais enraivecido, a atirar-se a mim, ao dono e a tudo o que mexesse. Nunca soubemos ao certo qual o mal que o atacou, nem de onde lhe veio aquela loucura, mas também não ficámos à espera para saber; não, quando tínhamos três crianças em casa, duas, mais pequenas do que o dorso do próprio cão. Foi doloroso, mas fez-se o que tinha de ser feito, não arriscámos.
Isto para dizer que não entendo, juro, quando vejo as pessoas a condicionarem a sua existência e a das suas crianças (quando não as crianças dos outros), ao comportamento dos animais, que tomam como certo. Como aquelas famílias que têm doberman e rottweilers que são uns queridos, SE as crianças não gritarem muito alto, SE não fizerem movimentos bruscos, SE não estiverem na presença de estranhos, SE… Ou, então, aqueles que afirmam taxativamente que um cão bem ensinado, que reconheça o dono, independentemente da raça, não é agressivo (a não ser que o dono o queira).
No primeiro caso, é pura e simplesmente absurdo: aquilo que deveria ser uma relação de prazer – o convívio com o animal – transforma-se numa tirania de condicionantes. Ter uma relação com um animal sob condição é um fardo desnecessário, além de sujeitar as pessoas que com ele convivem a um perigo gratuito. Porque, uma coisa eu aprendi, nestes anos todos de convívio com bichos e, em especial, com cães: eles são imprevisíveis, e negar esta realidade, ou é estupidez ou é arrogância (ou as duas coisas juntas). Nunca podemos prever ao certo o que pode despoletar um sentimento de medo ou de raiva e a resposta de um animal (mesmo que supostamente "treinado"), sob a forma de um ataque.
No segundo, é mais ignorância do que outra coisa, negar que certas raças detêm características mais agressivas do que outras e afirmar que não existem raças "más" mas, sim, donos que não sabem educar. Posso não apresentar aqui provas científicas (que as há) mas, parece-me de simples bom-senso que, se certos cães têm um maxilar que abre e se fecha como o de um pequeno esqualo, é natural que tenham uma maior apetência para morder e que, quando o façam, seja com violência, provocando geralmente grandes estragos. A minha pequinois rodas baixas é um doce, mas, se lhe desse para aconchegar canelas com os dentinhos, não viria daí grande mal ao mundo, atenta as suas estatura e força (e, mesmo assim, se mordesse, muito provavelmente a cadela não seria minha…). Agora, ter em casa um doberman, por exemplo, à mistura com crianças? É cá de uma irresponsabilidade, que faz favor. Podem jurar-me que é a criatura mais meiga do mundo, um querido, o melhor que pode haver para os petizes... até um dia – que pode nunca chegar, é certo, mas até um dia. E só esta possibilidade traduz um risco que eu não percebo estarem algumas pessoas dispostas a correr.
Portanto, se existe hipótese de escolha, se eu posso ir a um canil ou apanhar da rua um rafeiro eternamente agradecido, ou se posso ter um retriever bonacheirão, um cão pastor, um buldogue, para quê meter na cama dos meus filhos um rottweiler, um doberman ou um dogue alemão? Para quê arriscar-me a que, num acesso de fúria mal medida, inexplicável (são sempre inexplicáveis, já repararam?), as crianças possam ficar sem a cara?
Tal como o maralhal delinquente da Quinta das Conchas, as criaturas que, geralmente, têm este tipo de raças, são movidas pelos complexos de inferioridade, por puro exibicionismo, ou pela sensação de poder que têm, ao parecer aos outros que dominam a fera. Exibem o animal como uma arma ou um segurança privado, um prolongamento da sua "força" e das suas pilinhas. O chato é que, de vez em quando, saltam para as notícias episódios dramáticos com algumas raças de cães (quase sempre os mesmos: os que referi supra) que põem a nu a irresponsabilidade e a miserável cagança dos donos, ao acharem que os dominam e que sabem tudo sobre eles. É parvo, é triste e, muitas vezes, acaba mal.
Acho que ter um animal em casa deve ser uma fonte de amor incondicional, de brincadeira e de prazer e, nesse sentido, sim - acho que os animais estão lá para nos servir, a nós e aos nossos. Egoísta? Talvez, mas não me faz sentido, adquirir voluntariamente um monte de preocupações e de margens aleatórias, para mim e para os meus.
Sou, aliás, ainda mais fundamentalista, mais papista que o papa: apesar de adorar cães e de não me importar nada que um deles venha desencabrestado rua fora, me cheire o rabo e me lamba as mãos, percebo que exista quem não goste. Mesmo os mais meigos, os mais tontos, os manifestamente inofensivos, não deveriam andar soltos na rua. Aquela conhecida frase, "não tenha medo, ele não morde", que todos nós já ouvimos numa altura ou noutra, desperta em mim uma irritação desmedida. Eu não sei se o cão não morde e não me interessa: posso simplesmente não gostar que me fareje e lamba; não sei se está vacinado, se está limpo; posso ir com o meu cão pela trela e não me apetecer vê-los a engalfinharem-se, posso ter um medo irracional ou posso ser alérgica... Não são só os cães perigosos que circulam livremente graças à imbecilidade dos donos; os outros, por vezes, também; traduzindo-se estas amplas liberdades, antes de mais, numa enorme falta de respeito pelo espaço contentor de terceiros.