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Domingo, Dezembro 30, 2007

todos os anos,
a feira de Novembro aqui na santa terrinha onde me encontro vem acoplada de uma excrescência: uma miserável tenda de circo, rodeada de jaulas fétidas e lamacentas, onde animais de todos os tipos e latitudes, desde camelos a elefantes e tigres, despojados de espaço, saúde e dignidade, vegetam tristemente. O circo com animais selvagens é um espectáculo medieval, cruel e degradante, e esconde todo o tipo de sevícias contra os bichos, que mereciam ter sido deixados na paz do senhor lá no seu habitat natural, em vez de sujeitos a um mimetismo forçado e ridículo para gáudio de umas centenas de labregos que riem muito, muito, quando a macaca levanta o saiote, o elefante diz adeus com a tromba ou a morsa bate palmas. Temos que defender estes animais, porque eles não o podem fazer sozinhos - é tão simples quanto isto. Os direitos dos animais, fomos nós, seres humanos, que os criámos, porque somos civilizados e percebemos que eles são criaturas em desvantagem que têm de ser protegidas, como as crianças ou os deficientes. Por isso, quando a violação desses direitos é tão flagrante que nos entra pelos olhos dentro, como é o caso, temos mais é que assinar petições e levá-las à assembleia, fazer muito barulho, indignarmo-nos publicamente, denunciarmos, cuspirmos na cara dos chen e dos cardinalis deste mundo e recusarmo-nos a servir-lhes bicas nos cafés. Mas, mais do que isso, temos todos de deixar de ir ao circo, cortando de vez com o seu sustento até serem obrigados a procurar trabalho nas obras. E temos também de ensinar aos nossos miúdos que aquilo não é diversão coisa nenhuma, para que nas próximas gerações já não seja preciso proibir nada, porque a coisa entretanto morreu de morte natural. E que eles saibam que existe uma hierarquia de seres humanos, sendo que os que maltratam animais estão na base da pirâmide.
Para ataques incontroláveis de fúria ou de choro, consoante o estado de espírito, vão aqui, aqui, aqui, aqui ou aqui.

E, já que estamos no tema, aqui fica uma homenagem à Lucky (que se foi embora neste Natal), a única cadelinha que conheço que dedicou a sua vida a criar ninhadas sucessivas de gatinhos órfãos. Espero que aí no ceú dos cães onde te encontras, minha querida, haja muitas galinhas para perseguires e seres feliz.

Sábado, Dezembro 29, 2007

les miserables

No telejornal da SIC, repórteres acompanham a Brigada de Trânsito e constatam in loco a prática de várias infracções por parte de automobilistas apanhados em flagrante. Uma reportagem fraca, porque subjectiva e carregadinha de juízos de valor. A dada altura, é mandado parar um Porsche (pareceu-me um Boxter), de acordo com a repórter, “um carro de alta cilindrada”, “típico de quem quer dar nas vistas”. Uma conclusão desnecessária, assente num juízo dispensável, que pode nem sequer ser verdadeiro. Para além do exibicionismo e da vontade irresponsável de acelerar no meio dos outros, existem inúmeras razões para que alguém - tendo possibilidades de o fazer, claro - compre um carro caro: a segurança, a estética ou o conforto acrescidos, entre outras. Ou então a pura e simples vontade de se passear numa coisa boa - facto que dá, obviamente, prazer à maior parte das pessoas normais. “Dar nas vistas” será apanágio apenas de alguns. A generalização apressada resulta de um preconceito recorrente: o de que quem tem coisas boas só as quer para se exibir perante os outros e não para seu próprio usufruto. É certo que a falta de vergonha, de gosto e de decoro de um certo novo riquismo contribuiu para o preconceito; mas também é verdade que o dito preconceito cresce e se alimenta de um miserabilismo de sinal contrário, invejoso e ressabiado, que também gostava de ter e que, ao reduzir a posse de um objecto bom e belo a um sentimento fútil e mesquinho, pretende diminuir quem tem.

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

benazir

não aponte o dedo
para benazir butho
seu puto
ela está de luto
pela morte do pai
não aponte o dedo
para benazir
esse dedo em riste
esse medo triste
é você
benazir resiste
o olho que existe
é o que vê
benazir,

Chico César

os portugueses têm um comportamento anormal dentro dos aviões:
não só desatam a bater palmas no fim de cada aterragem, como se tivessem acabado de assistir a um número de circo, como, assim que o avião toca no chão, se levantam imediatamente do lugar e desatam a abrir as bagageiras, atafulhando-se com as muitas malas e sacos que, desconfiados, se recusaram a enviar para o porão. É que de nada adianta o please remain seated: ainda com o avião em processo de travagem, os flaps em esforço, e é vê-los a tropeçarem uns nos outros em desequilíbrio, a puxarem a bagagem para baixo enquanto ligam à fuçanga os telemóveis, na pressa de dizerem, muito alto, que já chegaram e que estão vivos. Se tivermos o azar de viajar com eles numa low cost na véspera de Natal, da Alemanha para Portugal, então, temos um bónus : o de os ver, em especial aos emigras de segunda geração (são sempre os piores, os da segunda geração, seja que tipo de emigras forem) a serem corridos pela tripulação, exasperada, por terem fumado nas casas de banho e ligado os telemóveis ainda no ar. Mortifica-me, a cada vez que saio e depois regresso, o retorno à falta de civismo, de nível, de cultura e do conhecimento mínimo das regras básicas de convivência; e desagrada-me, aquela desobediênciazinha cobarde, porque sem consequências, e aquele desviozinho à norma e ao estabelecido para todos, que se limita a prejudicar um bocadinho os outros e a chateá-los, tão típico destes heróis do mar. O português, infelizmente, continua ainda, para os outros, demasiado parecido com a caricatura do que é ser-se português: uma criatura folclórica que come bacalhau e fala demasiado alto e que, na escala civilizacional, se situa um bocado acima de um marroquino, mas definitivamente abaixo de um espanhol.

Quarta-feira, Dezembro 26, 2007

fartinhos das filhozes oleosas e da gritaria da parentada?
Então fujam para uma qualquer divisão da casa que tenha televisão e liguem a dois: está a dar um documentário com Chico Buarque, À Flor da Pele. Neste momento, Caetano canta “Sem Fantasia” e eu sou uma mulher feliz à beirinha das lágrimas. Corram, incréus!

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Comam muito, comam demais; abracem os parentes que não suportam, e ainda mais os que adoram; encham os miúdos de presentes, excedam-se nos afectos, nos beijos, nos risos; atentem nas luzes, nas decorações das ruas, nos pinheiros que espreitam por detrás das janelas; atentem nos vossos e nos outros; deixem o trabalho para trás, façam ponte, gastem até ao último tostão do cartão, viajem, vejam filmes estúpidos em que as renas falam, cantem hossanas ao Senhor nas alturas; façam filhozes, façam filhotes, façam amor, tenham saúde. E um excelente Natal para todos, cheio de Paz. Muita Paz.

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

o novo mito urbano

Não nego que a ASAE aja por vezes com excesso de zelo; nem que algumas das normas europeias que obriga os outros a cumprirem, sejam idiotas e desnecessárias. Mas mais de metade daquilo que por aí se diz que aquela faz, é mentira (como algumas das coisas descritas por António Barreto no seu já famoso artigo). Pura e simples mentira. Tipo o caso das castanhas, da imposição dos assadores de inox e da proibição das listas telefónicas. A cada dia surge um novo absurdo supostamente imposto pela ASAE. Que ninguém confirmou in loco, embora toda a gente tenha um primo de um tio de um avô de um amigo que viu e que sofreu na pele os horrores da higiénica injustiça, coitado. A actuação da ASAE corre o risco de se tornar o mais sério mito urbano dos últimos anos, muito à frente daquela história dos amigos que dão boleia a um estranho e que chegam a uma curva onde aquele diz "Foi aqui que eu morri", após o que se despistam todos e fim. Já faltou mais, para começarem a correr vídeos no youtube que documentam as investidas selvagens dos danados dos inspectores sobre os comerciantes, essas vítimas inocentes cujo único interesse é trazerem a nós a tradição. Por acaso, este é um daqueles casos em que um bocadinho de objectividade até dava jeito.

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

"Pai, já sou ministro! amanhã vou debruçar-me sobre a questão dogmática do fim das penas e o reforço da tutela dos bens jurídicos fundamentais e propôr ali no parlamento umas alteraçõezitas ao código penal. Mas primeiro vou comer um bife, que o comboio deu-me fome. Dizem que há aqui em são bento um café que os faz a jeito. Já agora, agradece à mãe a taparuére com o cozido."

"Há ainda uma coisa que as pessoas não entendem em Portugal: quem organiza a justiça é o poder democrático, é o espaço público, somos nós, e não os especialistas. Quem faz as leis somos nós. Quem trabalha na justiça só tem de aplicá-las, e não tem de meter o bedelho na formulação das leis, e nem sequer devia meter o dedo na discussão sobre a organização interna da justiça. Isso cabe aos representantes eleitos."

(A culpa disto tudo é do Maradona, que me obriga a seguir as chatérrimas - embora educadas! - peixeiradas da Atlântico, onde depois - definitivamente contra a minha vontade, reparem - deparo com pérolas destas. Ainda por cima, com tanto liberalismo democrático apregoado a esmo e têm os comentários fechados, obrigando uma pessoa a vir para o seu próprio blogue gozar com eles. tá mal.)

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

hey there delilah

(quase Simon & Garfunkel. faltou-lhes um bocadinho assim)

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

os blogues do ano (I)

Vejo nas escolhas dos outros uma preocupação com o ser-se objectivo, com o mostrar que o que quer premiar (através do que se escolhe) é o mérito (da escrita, das ideias, da bagagem cultural, das opções estéticas). Há um cuidado nítido em obstar a acusações de amiguismo que possam indiciar o pagamento de favores ou, pura e simplesmente, manifestações de afecto. Quase já ninguém diz “Eu gosto deste blogue-moribundo-de-template-duvidoso-onde-se-escreve-sobre-física-quântica porque o autor é um grande amigo meu de infância.” Parece mal. Pois eu gosto em primeiro lugar dos blogues pessoais das pessoas que são minhas amigas. E dos blogues de algumas outras pessoas que eu gostava que fossem minhas amigas, mas que não são. E ainda, dos blogues de umas terceiras que, em não sendo minhas amigas e em eu até desconfiando que não gostam de mim nem eu delas, escrevem com originalidade e graça, sem me maçarem de morte (o que é difícil, convenhamos). E, por último, dos blogues de outras pessoas que nada me dizem de especial mas que objectivamente mexem comigo, seja lá de que maneira for (porque, por exemplo, me fazem rir, ou porque concordo geralmente com o que escrevem). Ah! E o meu outro blogue, claro!, o meu outro blogue: definitivamente, o melhor do ano, não me lixem.

dica jurídica da semana (II)

Se forem apanhados a conduzir e tiverem bebido pouco tempo antes, não requeiram a contra-prova. Isto porque o álcool demora algum tempo a entrar na circulação sanguínea e a espalhar-se pelo que, se fizerem, algum tempo mais tarde, outro teste, ainda se arriscam a que acuse um valor maior e depois é este que conta. Se já tiverem bebido há algumas horas, existe uma boa hipótese de o álcool já ter começado a ser expelido pelo organismo (que fica "limpo" ao fim de mais ou menos doze horas), pelo que, quanto mais tarde efectuarem o teste, maiores as probabilidades de ver o valor do primeiro teste, reduzido. (é claro que o melhor é sempre não beber de todo ou não conduzir, ponto - mesmo que depois de um só copo de tinto).

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

Sob o nome pomposo de “ensaio”,
Maria Filomena Mónica (MFM) assina, na Revista Atlântico deste mês, um artigo sobre o universo das revistas cor-de-rosa, e no qual abundam números, comparações e mais números, numa abordagem superficial, típica de quem tem tanto nojo da coisa que lhe pega de pinças e a olha de longe. MFM debita uma série de banalidades, como a de que aquelas vendem "(…) imagens à volta das quais os leitores cristalizam sonhos (…)”, destinando-se a “(…) quem tem uma existência de tal forma oca que as “celebridades” são o único centro de interesse”. Aliás, poderia estar aqui a dissecar o artigo todo e a desfiar pérolas atrás de pérolas, como esta: “Em vez de pensarem nos filhos desempregados, nos maridos que as enganam, nos bairros onde vivem, nos transportes que utilizam, na curvatura da espinha a que são forçadas no trabalho, no tédio dos dias sem fim, as mulheres (…) sonham com gente bonita a viver entre candelabros que nunca se apagam”. Quer-me parecer que as operárias que curvam a espinha não terão dinheiro para gastar em revistas e que o conceito de tédio não será o que melhor se aplica aos seus dias, mas que sei eu. E já nem falo da desastrada tentativa de justificar porque, apesar da análise crítica que pretende fazer ao meio, também ela própria já apareceu por diversas vezes nas ditas revistas, que (claro) só a difamaram, as imprestáveis (será que MFM nunca ouviu falar no direito de resposta?). Mas o pior fica para o fim, com esta frase fatal: “As revistas cor-de-rosa podem distrair os leitores, mas jamais os consolarão, porque o consolo exige a verdade e não é esta que lhes é oferecida”. Nada de mais errado, credo: o consolo que estas revistas fornecem reside, precisamente, em estarem suficientemente longe da verdade para se tornarem apelativas. E não o são só, nem necessariamente, para quem tem vidas de merda: todos temos uma cabra voiyeurista dentro de nós, a saltar para que a deixemos sair, e uma bela e sumarenta revista cor-de-rosa permite que a dita escoiceie à vontade e se liberte, o que é bastante saudável. Pois é. Eu, não só leio revistas "cor-de-rosa", como as compro: são um belo interregno no exercício da minha profissão, feita de dramas humanos, raciocínios intrincados e palavras difíceis. E mais: quando o café da manhã se estende caridosamente a um galão e uma torrada, também marcham o 24 Horas e o Correio da Manhã. Tenho, obviamente, os meus limites, que são todas as revistas que só falam de novelas… pela simples razão de que não vejo nenhuma e não sei do que estão a falar. Mas voltemos ao artigo. O problema de MFM nem é tanto o de acertar ao lado (que acerta), mas mais o de não perceber (ou fingir não perceber) a realidade sobre a qual está a escrever. Parece a crónica de alguém armado em boi a olhar para um palácio e a fazer questão de não saber exactamente o que aquilo é. Ora, para se falar com alguma propriedade da questão, é preciso que, de alguma forma, se aprecie, mesmo que ao mesmo tempo se despreze, ironize e se goze.
Em primeiro lugar, quem compra uma revista cor-de-rosa tem sempre maldade no corpo (uma maldade crua e por polir, de manicura da Trafaria), um olho treinado para adivinhar os podres e uma má-língua em estado natural. O máximo conseguido por MFM, coitadinha, é uma boca (ui!) sobre Luís Filipe Menezes, “(…) o qual descobriu uma namorada na pessoa da eng.ª Maria Teresa Moas, a responsável, na Câmara de Gaia, pelo Departamento de Circulação Urbana e Transportes. A senhora tanto circulou que acabou por transportar o chefe.” (rir, portanto).
Segundo, o aspecto da fidelidade, fundamental para se perceber a constante atracção do fenómeno: eu, para poder constatar com um certo e indisfarçável triunfo que a elsa raposo está gorda, tenho que saber que ela já foi mais magra. E mais gira. Não vou, como é óbvio, gastar um euro e tal só para lançar um olhar acrítico sobre a figura da senhora, quando a vejo de abalada para Angola com o "namorado" e a dizer barbaridades como a de que vai fazer um grande "sacrifício" pelos filhos. Não: eu, atenta ao historial de miséria da criatura, sei que ela tem 3 filhos pequenos dos quais não tem a custódia. E que teve vários "abortos naturais", que não se cansou de carpir publicamente, de forma desbocada. Pensamento imediato: se acreditasse N´Ele, diria que Deus, às vezes, até sabe o que faz. E depois, rir-me-ia interiormente. Ou exteriormente, se tivesse alguém ao lado com quem partilhar a lúgubre chacota.
Este fim profilático, inerente às revistas cor-de-rosa, escapou completamente a MFM. Ou seja, que aquelas servem essencialmente para nós, mulheres (e alguns maricas) destilarmos o nosso fel natural contra as outras mulheres, sem chatearmos ninguém à nossa volta. É uma forma de podermos deixar em paz as amigas, as irmãs e as vizinhas e de com elas convivermos mais ou menos pacificamente. Até porque, felizmente, as ditas "colunáveis", quando não são objectivamente feias (as brasonadas são-no quase sempre, é um regalo), vestem-se-mal; já quando são giras e até têm bom-gosto, ou são burras ou não sabem representar, ou não sabem fazer nada na vida e subiram na horizontal. E não me venham com tretas: esta má-língua, não poucas vezes injusta e despropositada, é, de facto, consoladora. Quero lá saber de sonhar com "candelabros"! Eu divirto-me é a ver as mais recentes queimaduras químicas na cara do castelo branco, o qual, todo contente, se acha de novo com "pele de criança", chamem-me nomes. As revistas cor-de-rosa funcionam, para as mulheres, como os jogos de guerra para os homens: já que não podem sovar o vizinho, dar um tiro no chefe ou abalroar o carro do gajo que vai ao lado no trânsito, resolvem as pulsões agressivas na playstation3, e todos ficamos felizes. MFM, com os seus preconceitos de classe (operária = inculta; burguesa rica = inculta; eu = culta), limita-se a debitar clichés (talvez até com uma certa candura, admito) e passa completamente ao lado deste aspecto fundamental, que é o do apaziguamento momentâneo - mas eficaz - da cabeleireira invejosa que todas temos dentro de nós. O seu maior pecado foi, no entanto, o de me ter maçado de morte com tanta e desnecessária conversa.

A propósito, ler, aqui, uma perspectiva diferente, mais interessante e ainda por cima de graça, sobre a questão (é que paguei quatro euros pela menamónica, tenham lá paciência…).

dica jurídica da semana (I)

A partir de hoje uma nova série, tendencialmente semanal, onde irei contrariar o facto de o cidadão comum (ou seja, o leigo) ser muitas vezes apanhado desprevenido pelas minudências de uma Lei que não está obrigado a conhecer, pela simples razão de que ninguém a explica como deve ser. É imprimir e guardar, passe a imodéstia, porque vos pode vir a servir de muito, oié! Para começar, e porque é Natal, aqui vão duas fantástico-utilíssimas dicas de uma só vez:

1ª Se, por um infeliz acaso, a Brigada de Trânsito vos mandar parar para vos imputar a prática de uma contra-ordenação que acham que não cometeram, quando forem para a pagar (terão de o fazer, se não não saem dali), façam-no a título de pagamento da caução e não de pagamento da multa. Ou seja, ao assinarem o auto, botem a cruzinha onde diz “caução” e pronto. Isto porque se pagarem a multa, tal acto equivale a uma confissão dos factos, o que significa que, se mais tarde quiserem recorrer daquilo para um tribunal comum, não têm hipótese.

2ª Se, por um outro infeliz acaso, receberem em casa uma multa de trânsito para pagarem, mas com a qual nada tenham a ver porque relativa a um carro que já venderam mas que ainda está em vosso nome, têm quinze dias para enviarem a identificação do condutor e/ou actual proprietário do mesmo (está no verso do auto). Pode pressupor algum trabalhinho de detective mas vale a pena. É que, se não o fizerem, a lei pressupõe que eram vocês que iam a conduzir, o que significa que, se mais tarde quiserem recorrer daquilo para um tribunal comum, também não têm hipótese. Por hoje é tudo. Enjoy.

o pai natal não existe (II)

Numa revista "cor-de-rosa", um filho-família rodeado de sobrinhos na sua "quinta" setecentista, todos muito vincadinhos e penteadinhos, faz uma ousada afirmação de classe: "O Pai Natal é o empregado de Jesus". E - digo eu - aposto que trabalha a recibos verdes e não recebe horas extra, que é do povo, que gosta de couratos e de mines (basta olhar-lhe para a barriga) e que, na noite de Natal, entra, não pela chaminé, mas pela porta de serviço da "quinta" e come o leite e as bolachas na cozinha, sob o olhar desconfiado das criadas de roupão. Afinal, chacun a sa place.

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

Está diferente, o Natal, não sei. Talvez pela bonança que se seguiu, pela presença subtil dos fantasmas do natal passado ou, pura e simplesmente, pelo cansaço físico que se exaure pelas pontas dos meus dedos. Cada vez mais, uma coisa que sinto, e menos uma coisa que digo. Cada vez menos importantes, o barulho das luzes, as compras e toda a parafernália estridente que acompanha a época. Na verdade, este é um Natal que não precisa de se chamado assim e que não carece de reconhecimento, porque eu já o sei: uma rampa para a renovação familiar e amorosa, com inclinação acentuada e derrapanço no final. Não me apetece as prendas, os coros, as filhozes. Apetece-me estar, ficar pela vizinhança, dispor do meu escasso tempo e partilhá-lo com eles; aliás, dar-lhes todo o meu tempo e gozar a mansa serenidade de os ter por perto, com saúde. E, vá lá, uma mágoa fininha por não ser crente e por não ver, no Natal, algo mais e de mais profundo do que esta pobre felicidade oblíqua, que me atravessa de igual modo o resto do ano, a cada vez que nos vejo à volta de uma mesa ou abancados num sofá que de tão usado já incorpora em si, como se assim viesse de fábrica, a forma dos rabos de cada um.

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

o pai natal não existe * (I)

Gosto pouco de partilhar as minhas pessoas com os outros.

* ou de como o Natal é uma forma de inocência tão facilmente perecível como qualquer outra.

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

já não é a primeira vez que tenho esta ideia:
a blogosfera devia quotizar-se e pagar ao maradona para escrever. Mas pagar à séria, para que ele possa comprar reservas de linces e de albatrozes e pagar a criadas que lhe cozam a pescada com o esparguete, e a tipas giras que lhe dêem muitas massagens para que jamais se sinta gordo e nunca fique triste. Pensando melhor, não há dinheiro que pague expressões como “marmotas de estimação”.
só mesmo por esta mulher

... é que eu punha um toureiro neste blogue.

Muitos PARABÉNS, minha querida, pelos quatro anos de blogue (e desculpa o atraso, sabes como sou). O teu blogue não é mais um: é O BLOGUE, o primeiro e dar de comer e beber a todo o grelame que para aqui andava, em busca de identificação e de uma certa maneira de dizer as coisas. Pode, aliás, dizer-se que a tua maravilhosa escrita (para mim e para muita gente), é como pão para a boca. Ainda por cima, é um blogue sincero, desbocado, bondoso, inteligente e muito boa onda: tal como tu, aliás. Oié! :)

P.S. E fica sabendo que és a única escritora de quem guardo, cá em casa, três exemplares do mesmo livro, em sítios diferentes, não vá o diabo tecê-las. Ganda beijão!

Terça-feira, Dezembro 04, 2007

O que cada um de nós pensa de Saramago é irrelevante. É irrelevante, por exemplo, eu escrever que gostei de alguns livros dele, de outros não, e que a maioria nem sequer li. A opinião dos críticos, embora pese um bocadinho mais do que a minha, também não importa por aí além. Da mesma forma, não interessa especialmente que ele pense que Portugal devia ser anexado por Espanha. Se calhar, devia. Ou não. É a opinião dele; acha que Espanha é um país melhor, por várias razões. Se calhar, até é. Para ele, deve ser. É, igualmente, de pouca monta, o que o senhor pensa sobre Cavaco, a Ministra da Cultura, o partido comunista, ou os outros partidos ou governantes em geral. Interessa, a quem se interessar pela opinião dele. Saramago ganhou o Nobel e é, por isso, maior do que ele próprio (um senhor velhinho, um bocado truculento e de ideias fixas) e, num certo sentido, é maior do que este país mesquinho que não lhe liga nenhuma por ele dizer mal e lhe ter virado costas. É claro que os espanhóis, espertalhões e oportunistas, peritos na auto promoção e em se rodearem dos bons por forma a parecerem melhores, capitalizam (e muito) com este desprezo nacional para com Saramago. E são sempre os primeiros a chegarem-se à frente nas homenagens, desdobrando-se em familiaridades e encómios múltiplos, aproveitando para manifestar estranheza e incredulidade quanto à indiferença do seu país de origem perante a genialidade do escritor. Acho isto um bocadinho patético. Portugal tinha – oficialmente - a obrigação de ser maior do que a irrelevância a que se reduzem as escaramuças infantis entre Saramago e alguns políticos e agentes culturais, e devia tratá-lo nas palminhas, dando-lhe as atenções, as recepções e as comendas que costuma guardar para os jogadores de futebol.
tesão e azevias

Ainda a propósito, aqui vai o repost de um texto já dos antigos, especialmente dedicado a uma queridíssima amiga que diz que o mesmo lhe dá tesão (de que género, não sei). Um grande jingobé para ela!

"Provaram a massa: ele achou-a boa de sal, ela, que estava insossa; juntaram-se as línguas por uma questão de tira-teimas; ele duvidou da consistência dos filhozes, achou-os massudos; ela, espalhou a massa entre as pernas e disse-lhe que experimentasse outra vez e que, por via das dúvidas e de caminho, visse se lhe faltava abóbora. Depois, como achasse os coscorões doces demais, sacudiu-lhes o açucar em excesso no peito dele e lambeu-o de cima a baixo, que na natureza nada se perde. Ele, mortinho por experimentar o recheio do peru (receava pelo excesso de aguardente e que pedisse mais pinhões), mas o papo do animal não fora devidamente trabalhado, faltava-lhe o debulho; então, ele recheou-a a ela e provou-a, rindo-se ambos à perspectiva de idêntico lambuzanço de outros orifícios (estes mais abençoados), por parte das tias velhas na noite da consoada, longe estas de imaginar o alcance das sessões de prova. Afinal, estava perfeito, o recheio, estava no ponto - aliás, estavam os três no ponto: ela, ele e o recheio. Nos entremeios, ela corria para o fogão, a mexer o grão misturado com o açúcar, o limão e o pau de canela, desconfiada da costumada excelência das azevias, com tanta interrupção delambida. Para mais, ele vinha-lhe por trás, levantava-lhe o avental, agarrava-a pela cintura e mordiscava-lhe, à vez, os lóbulos das orelhas, a curva enfarinhada do pescoço e os frutos cristalizados, com que ia coroando o bolo rei. Num outro bico do fogão, cozia a massa dos sonhos que ela tentava, em vão, descolar das paredes do tacho, quase esturro, culpa de um sorver mais prolongado num recanto da sua anatomia, para aferir da fluidez e do travo a laranja da calda de açucar. Chegou a vez de ele bater os ovos para as rabanadas; era sempre ele, nas rabanadas. Costumava dizer, a meter-se com o feminismo empinado dela (próprio de quem não tem razões de queixa), que fazer rabanadas era coisa de macho, porque isto de amaciar pão duro com açucar e gemas batidas, dando origem uma delícia comestível, era, no fundo, o que os homens faziam às mulheres. Ela fingiu-se ofendida e virou-lhe as costas, passando-lhe os tarecos e os ingredientes para trás, sem o olhar; depois, voltou-se, rodeou-lhe a cintura nua com o avental e deixou-o virar a cozinha do avesso (como fazia com ela), tendo o cuidado de se abster de brincadeiras de pele durante a fritura. Na noite aprazada, estava tudo delicioso, diziam-lhes, e eles sorriram-se, pois claro, como é que poderia não estar, afinal, o ingrediente secreto que nos faz a todos lamber os dedos, chorar por mais e ser felizes a espaços, não é, seguramente, um qualquer cardamomo da costa do Malabar. O ingrediente secreto é (o) outro."

Domingo, Dezembro 02, 2007

No Brasil, dizer que fulano ou sicrano é um tesão, não tem um significado tão, digamos, intenso, como em Portugal. É um adjectivo bom, bonito e corriqueiro, que passei a usar quando acho que alguém é especialmente propenso a ele.

Fiquei a pensar nisto. Mais de cinco minutos, aliás. Parece que faz sentido, tesão como adjectivo, e ainda por cima masculino: afinal, a etimologia aponta para firmemente distendido ou rígido. Por cá, tesão não é adjectivo que qualifique o entusiasmo por algo ou alguém: é, antes, um substantivo que define um estado, uma sensação. Não especialmente bonita, nem corriqueira. Aqui, uma pessoa não é um tesão; antes, tem-se tesão por essa pessoa. O ser objecto da tesão do outro não resulta de uma apreciação quase, quase, objectiva (enfatizada, aliás, pelo uso do verbo ser) mas de uma mais íntima e subjectiva, e daí o verbo sentir: eu tenho, eu sinto, tesão. E é feminina, claro. Só por isto, já não poderia ser coisa leve, boa ou apreciativa; a tesão daqui é interior e complicada, é chata e pesada; é uma espécie de incómodo, a aplacar ou a enxotar de vez. Está perto da emoção, e daí o rebuço em confessá-la. Já aquilo a que chamamos de tesão intelectual, de intelectual não tem nada. É, sim, coisa de bicho, que se sente pelo intelecto do outro. Coisa de bicho, sim, que nos inquieta e comicha mesmo que o outro seja marreco e coxo. Um intelecto tesudo manifesta-se na conversa, na escrita e, não obstante, sentimo-lo entre pernas e nos desvios de ar quente. Não é uma mera constatação, a tesão lusa: é uma manifestação física que pode ter consequências futuras, como bebés ou providências cautelares a impedir aproximações a menos de cem metros. No fundo, o tesão é fácil e inconsequente; é, obviamente, um pito de homem aos saltos - fácil de falar, de brincar, de exorcizar e vencer. Já a tesão, é coisa de pipi que acorda do seu sono de beleza e se humedece, envergonhado e constrangido, a disfarçar o alto que se notaria no meio das calças, se o tivesse. Neste caso, a palavra não só é mais poderosa do que a espada, como é mesmo mais poderosa do que um vibrador com três velocidades e marcha atrás. Por isso, é-me um bocadinho difícil, entender isso do Pedro Mexia, embora concorde com o amigo dele: o que escreves dá ponta. Ponta e ficamos por aqui. Assim me livro de ter de optar por um dos géneros (e é que, a ter de escolher, nem Houaïss nem acordo ortográfico me salvariam este pipi fescenino, e depois toda a gente ficaria a saber).